Game Boy

Game Boy

Fevereiro 23, 2019 0 Por Francisco Ramalheira
Partilhai e espalhai a mensagem gambuziana

Nascido numa época em que se podia chamar Game Boy a uma consola, sem que meia dúzia de almas reclamassem que o nome da consola era machista e misógino, a mítica portátil da Nintendo invadiu milhões de lares em todo o mundo, tornando-se numa das consolas mais acarinhadas de sempre e num marco incontornável dos anos 90.

Chegando à Europa em 1990, a popularidade da portátil de 8 bits da Nintendo foi de tal ordem que acho que, a certa altura, havia uma Lei qualquer que obrigava todos os putos a terem aquela maquineta a preto e branco.

Publicidade Game Boy

Game Boy e o fenómeno da carpete

Poucas devem ter sido as escolas primarias dos anos 90 que não se viram invadidas por esta febre, que tinha em Super Mario Land, Tetris, Zelda ou Pokemon os seus principais vírus. A minha escola não escapou.

Embora a atividade que mais tempo ocupava os rapazes fosse, indubitavelmente, dar uns pontapés numa bola, havia sempre uma grupeta que se instalava nos faustosos e confortáveis bancos de madeira, de Game Boy em punho, numa busca incessante pela posição que permitiria ter melhor visibilidade daquele ecrã monocromático em tons esverdeados.

Este grupo de míopes ou futuros míopes cresciam exponencialmente nos dias de chuva, criando-se o fenómeno de carpete. Não sabem o que é? Eu passo a explicar. Enquanto um miúdo estava agarrado a um Game Boy a tentar levar o Wario até ao final de um nível, à sua volta orbitavam obrigatoriamente, pelo menos, mais 3 pessoas que encostavam as suas cabeças umas nas outras, na ânsia de melhor captarem a imagem fosca e monocromática que a consola oferecia formando assim um bonito tapete de várias cores capilares. Toda a gente sabia que levar o Game Boy para a escola era sinonimo de ganhar uns gémeos siameses. Para quem era filho único esta era a melhor forma de ter irmãos sem que para isso tivesse de haver coito paternal.

Recordo com saudade uma manhã fria e cinzenta na qual um dos gémeos siameses espirrou forte, espalhando muco nasal por cima dos restantes mártires que se encontravam de volta do Game Boy, que por ser amarelo até combinava com a ranhoca e tudo. Ou quando um desgraçado achou que era bom ideia ir jogar à bola para a gravilha com o Game Boy no bolso fez um carrinho e… até o meu coração se apiedou do sofrimento pelo qual aquela criança estava a passar. Mas a melhor foi provavelmente quando uma simpática auxiliar, depois de tocar para entrar, manda toda a gente “arrumar os Aime Bois”.

Publicidade Game Boy Color

A correlação entre o Game Boy e o piolho

Para além de ser uma excelente forma de angariar calor humano, o Game Boy era também um sublime viveiro para piolhos. Desta forma, esta consola portátil não só dava irmãos (siameses) a quem os desejava, mas também dava fofinhos animais de estimação a todos aqueles que suspiravam por um canito.

Na verdade, nada me tira da cabeça (afinal de contas, o tema é piolhos), que todos os surtos destes simpáticos bicharocos que apareceram na minha escola tiveram como génese uma singela maquineta portátil a preto e branco. Aquelas cabeças siamesas todas juntas eram uma linda autoestrada para os simpáticos bichinhos viajarem e porem ovos.

Game Boy, a demanda pelas pilhas

Todos os detentores da portátil da Nintendo conhecem bem a dor que nos invadia a alma e encarquilhava o coração sempre que a consola se desligava nas alturas mais inoportunas, devido a esse flagelo universalmente conhecido como “pilhas mortas”.

Embora a maquineta ainda aguentasse sólidas 20 horas de jogo (quem teve uma Game Gear sabe perfeitamente que tinha de ir por os seus dotes a render numa rotunda obscura para poder alimentar o bicho), a verdade é que o Game Boy original precisava de 4 pilhas para funcionar em termos (enquanto a versão Pocket apenas precisava de 2), pelo que o drama e o horror apoderava-se da pequenada quando a luz vermelha da bateria começava a perder vigor. Era nesta altura que tinha inicio a demanda por bateria, havendo duas formas de encarar este problema:

  1. Os crentes nos Deuses da pilha – estes são os que pegavam cuidadosamente nas pilhas moribundas e tentavam ressuscitá-las, apertando-as ou aquecendo-as (cheguei a testemunhar quem se sentasse em cima delas, qual galinha a chocar o seu ovo). Este esforço hercúleo era devidamente recompensado com mais 2 segundos de bateria. Valia a pena.
  2. Os mafiosos – estes são os que se viravam para os miúdos mais pequenos e diziam “Tché soce, orienta aí uma pilha aqui para o mano”. O bullying da pilha era tramado.

A portátil da Nintendo foi, por isso, responsável pela criação de uma implacável rede mafiosa no recreio da escola. Muito criminoso terá iniciado a sua atividade enquanto petiz nos anos 90, recorrendo ao furto e trafico deste bem essencial para a degustação do Game Boy: a pilha.

Nos cantos mais recônditos do recreio apareciam autênticos gangues de traficantes que “arranjavam” pilhas à malta mais enrascada. Quantos não terão estragado a sua vida devido às dívidas contraídas nesta altura conturbada das suas vidas… A dada altura até o comando da velha televisão onde a malta via o Dragon Ball depois das aulas foi alvo de furto ao nível da pilha.

Um dos dias mais tristes da minha vida escolar foi quando levei pilhas novinhas para o meu Game Boy e no intervalo elas evaporaram-se. Quem furta este bem de primeira necessidade tem o coração cheio de matéria excrementícia. Não se faz.

Conclusão

Responsável por enternecedoras memórias infantis e pelo aumento de várias dioptrias, o Game Boy é um dos símbolos dos anos 90. Desde que foi descontinuado e as consolas portáteis passaram a ter baterias que a industria pilheira nunca mais recuperou.