As trotinetes

As trotinetes

Fevereiro 20, 2019 0 Por Francisco Ramalheira
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Um dos temas do momento são as trotinetas que invadiram Lisboa, iniciativa que tem recebido críticas por parte do nobre povo lusitano, até porque uma das coisas que o povo português mais gosta de fazer é dizer mal de alguma coisa. E se à ação maldizente puder juntar a inercia de não fazer absolutamente nada para mudar a situação que está a criticar, o povo português ainda rejubila com maior vigor.

Somos um povo engraçado. Adiante.

Eu, sinceramente, acho a ideia excelente, pois ajuda a minorar alguns dos principais problemas da locomoção nas grandes cidades, tirando carros das ruas, esvaziando os transportes públicos e, mais importante que tudo, é um meio de transporte não poluente.

Não quero de forma alguma contrariar os inúmeros devotos seguidores do adorável presidente americano, mas aquela coisa chata do Aquecimento Global existe mesmo e o facto de a poluição estar a escangalhar o planeta por completo deveria ser um dos pontos mais importantes de qualquer agenda política, pelo que qualquer iniciativa para se por menos tubos de escape a circular é de louvar.

Então, se a iniciativa é assim tão boa, de que é que se queixa o povo português? Simples. Queixa-se de si mesmo.

Ninguém se queixa das trotinetes em si. As coitadas, como seres inanimados que são, não tem culpa de serem conduzidas por vândalos cujo respeito pelos transeuntes é nulo, não respeitando as mais elementares regras da cidadania e da boa educação, atropelando velhinhas nos passeios. Portugal é um país de contrastes e, se é verdade que temos muita coisa boa, no que toca a conduta automobilística temos a equivalência a bárbaros visigodos.

Sabiam que há países onde nem sequer há limite de velocidade? Ou seja, quem delimita a velocidade da viatura é o civismo e o bom senso do seu condutor. Agora imaginem isso em Portugal. Quando pararem de rir prossigam a leitura.

Infelizmente, e como era expetável, com as trotinetas não é diferente. Assim, um meio de transporte que se queria introduzir na via pública para facilitar a vida e trazer bem-estar a todos torna-se numa impiedosa máquina assassina de canelas.

Mas os problemas das trotinetes não se ficam apenas pelo facto de alguns dos seus utilizadores acharem que a estrada e o passeio lhe pertence. Se muita gente nem sequer se sabe comportar quando vai a uma casa-de-banho pública (consulte este estupendo artigo sobre Ética Sanitária) e conspurcam aquilo tudo iam ser asseados com as trotinetes? E acham que aquele pessoal cuja arrumação da casa se assemelha a um aterro sanitário iria proceder a algo tão elementar como “arrumar a trotinete no sítio devido”?

Amigos, nós somos o país que inventou aquela geringonça que nos obriga a colocar uma moeda no carrinho de supermercado! Foi a única forma de evitar que grunhos roubassem aquele monte inútil de ferro fundido ou que o espalhassem pela rua, quando o carrinho deixasse de ter utilidade para Sua Alteza.

Neste país lindo, há muita gente que não está à altura da beleza paisagística e rege a sua vida pela máxima “Não é meu, por isso posso estragar” ou “Como paguei, tenho direito a fazer tudo o que me apetecer”. Não há aquele sentimento elementar da vida em comunidade de que, a seguir a mim, alguém há-de pegar naquela trotinete.

É verdade que muito pode ser feito no domínio da trotinete, a começar por multar forte e feio os trogloditas que causam o pânico na via pública. Mas, no fundo, isto é uma boa ideia que está a ser chacinada pela idiotice, egoísmo e falta de civismo de energúmenos. O Caca faz, por isso, um apelo:

“Senhores energúmenos e senhoras energúmenas (era o que faltava ter as feministas à perna por não lhes chamar também energúmenas): para o caso de não terem reparado, se tirarem os olhos do vosso umbigo irão contemplar todo um mundo novo, no qual habitam outros seres para além de vós. Assim, se todos deixarmos de ser idiotas, a vida é muito mais fácil!”

Senhores políticos, se precisarem de um tipo para escrever discursos é falar com o meu agente. Vendo-me fácil por um cargo de administrador num banco quase a falir ou como reitor numa daquelas Universidades que estou isentas de impostos e que tem lucros supimpas.

Em jeito de conclusão,

sou obrigado a mencionar que esta iniciativa teve outro ponto positivo: quando era criança, andar de bicicleta era o normal, todos o faziam. Skate era para a malta cool e radical (no dia em que tentei ser cool e radical dei o maior bate-cu da minha vida). Depois havia as trotinetes que tinham como público-alvo os choninhas.

Esta iniciativa veio devolver as trotinetes às bocas do mundo e torná-las o alvo apetecível para jovens e imberbes adolescentes, que não só as montam (não sejam javardolas, vá lá) como ainda usam capacete! E são considerados cool!

No meu tempo (txi, estou mesmo idoso) andar de trotinete e, ainda por cima usar um penico de plástico na cabeça era sinonimo de exclusão social, pelo menos, até à faculdade. Os tempos mudam.

Mas já que estamos a falar de ressuscitar objetos choninhas da minha infância, venho aqui lançar o desafio de tornar cool as sandálias com meia branca. Partilhem a hashtag #voltasandaliaemeiabranca e parem apenas quando saírem à noite e virem o Bairro Alto repleto de malta trajando este bonito calçado.