A crise em Portugal

A crise em Portugal

Fevereiro 20, 2019 0 Por Francisco Ramalheira
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Nasci em 1988. Desde que me lembro de existir não me recordo de nenhuma altura em que o país não estivesse em crise. “Portugal” e “crise” são dois conceitos indissociáveis. Estamos em crise desde que D. Afonso Henriques quis dar uns bananos à sua progenitora, tendo sido feito apenas um intervalo para nos pormos numas caravelas e irmos descobrir o mundo.

É normal que um portuga se questione na razão de tal acontecer. Aliás, se mais portugas se questionassem (e indignassem) se calhar até havia menos crises. Somos dos países da União Europeia com menos poder de compra, salários mais baixos e com uma carga fiscal que não acompanha o poder de compra do “Zé”.

Deixo aqui as contribuições fiscais cujas verbas mais gozo me dão liquidar:

IMI

Queres comprar uma casa? Muitos parabéns senhor proprietário!

Em primeiro lugar tens de contrair um empréstimo com juros catitas e ficar a pagá-lo ate teres um andarilho. Para além disso, tens de pagar a escritura e esses salamaleques legais todos que, como todos sabemos, são muito baratos. São uns papelinhos que custam a módica quantia de 2000€. Trocos.

Para além do empréstimo da tua casa, todos os anos tens de pagar um simpático imposto chamado IMI, que no fundo é a principal forma de financiamento das Câmaras Municipais. E é um imposto alto. Mas as Câmaras estão quase todas sem dinheiro. Esta malta precisava toda de um curso intensivo de Educação Financeira. Com um módulo sobre Ética.

Ao menos sabemos que as Câmaras dos grandes centros urbanos usam bem estas contribuições dos seus contribuintes, não necessitando depois de enfiar parquímetros com preços pornográficos em todas as esquinas.

O simples facto de ter uma habitação com uma janela (uau, que luxo!) com uma vista decente é logo motivo para o IMI galgar logo uns degraus valentes. Por isso, meus amigos, aqui o sr. Caca aconselha a compra de apartamentos com vista para aterros sanitários. Pode não ser belo, mas ao menos não tens de transacionar um rim para poderes dar o teu humilde contributo para a salutar atividade camarária da tua zona de residência.

Não discuto a existência deste imposto. Questiono sim a excessiva tributação do mesmo. Principalmente tendo em conta, lá está, o nível médio do ordenado português.

IUC

Outro imposto pelo qual nutro desmedida afeição é o Imposto Único de Circulação (a sigla IUC diz tudo o que eu penso sobre isto). Quem tem um carro, para além de o ter pago e de ter de pagar combustível, revisão, inspeção, manutenção, seguro e portagens tem também de, anualmente, ter um ato de filantropia forçado.

Este enternecedor imposto serve, teoricamente, para compensar os efeitos provocados pelos veículos que circulam em território nacional, desde emissões de gases poluentes a desgaste de vias rodoviárias (e eu que pensava que as portagens já serviam para este último). Assim sendo, o valor do IUC varia conforme a idade do veículo, o combustível usado, a cilindrada do motor e a quantidade de gases emitidos.

Mas no fundo, quem paga mais é a malta que tem carros mais recentes (devem ter mais dinheiro! Pensam os inocentes governantes), mesmo que esses carros poluam perto de zero, enquanto aquelas farruncas que ainda andam a carvão e que criam um nevoeiro cerrado quando saem para a estrada pagam uma ninharia.

O meu conselho é para soltarem flatulências na rua enquanto podem. Qualquer dia também temos de pagar estas emissões de gases poluentes, para compensar os efeitos provocados pelos transeuntes que circulam em território nacional.

Quando este dia chegar vou ter de declarar insolvência.

Contribuição do audiovisual

Todos os comercializadores de eletricidade tem de taxar este amável imposto, sendo esta contribuição posteriormente entregue à Autoridade Tributária e Aduaneira que a entregará à Rádio e Televisão de Portugal, S.A. No fundo, sem ninguém nos ter perguntado nada, todos temos de mensalmente contribuir para os ordenados da malta da RTP.

Olhando de soslaio para a programação da estação pública vejo que é dinheiro bem aplicado. E quando leio que eles pedem que esta contribuição seja aumentada não posso deixar de concordar.

Ah, e a eletricidade em Portugal ainda tem 23% de IVA. Ou seja,
para além de ser das que tem mais impostos inerentes ainda apresenta o
mesmo IVA dos produtos de luxo, sendo que é um bem de primeira necessidade. Acho eu que é. Eu também, confesso, sou um finório que gosta de tomar banho de água quente e à noite ligar as luzes que nem um nababo, quando podia perfeitamente iluminar a casa recorrendo à boa e velha vela.

Ao menos estamos todos juntos nisto, certo?

Portanto temos crises constantes e impostos altos mas, ao menos, sofremos todos em conjunto certo? Não há cá bandidos a aproveitarem-se da desgraça alheia para proveito próprio! Viva Portugal!

Ah não… espera. Parece que há gestores que foram aumentados durante a crise , não havendo sequer uma avaliação do seu desempenho ou da empresa. E não foram aumentos mixurucas, foi mesmo à desavergonhado.

Oh diabo… Mas tu queres ver que há malta sem escrúpulos que enriquece com a “crise”? Por esta confesso que não estava à espera. Mantenho o “Viva Portugal” de há pouco, mas agora de forma sarcástica.

As crises em Portugal são cíclicas, e nunca vão deixar de o ser. Há demasiada gente a precisar delas para “subsistir”. Só não falo aqui de uma Contribuição bancária, para complementar o ordenado da malta que labuta arduamente todos os dias nas Administrações das entidades bancárias (que podia ser paga em conjunto com a fatura da água) porque ainda posso dar ideias a alguém.

As novas oportunidades que o desemprego nos oferece

A minha geração foi uma das bafejadas pela sorte com a última “grande crise” e respetiva entrada da troika neste pedaço de terra à beira-mar plantado, pois coincidiu com a nossa tentativa de entrada no mercado trabalho, tendo-nos sido ofertado uma escolha muito variada dentro do campo do desemprego e da precariedade.

Assim, conceitos como “trabalhar de borla” para “construir currículo” tornaram-se corriqueiras, nascendo também o enternecedor conceito de exploração de jovens que eram aceites em estágios, davam o que tinham e o que não tinham, trabalhando mais horas do que aquelas estipuladas no “contrato” para, no fim do estágio, serem substituídos por outro que aceite ganhar menos e, de preferência, trabalhar ainda mais. A humanização deste processo enternece o meu coração.

Foi a época áurea do desemprego em que a resposta do governo foi… aconselhar a malta a emigrar.
Depois de escutar esta preciosidade sinto urgência em me por de pé para aplaudir com estardalhaço.

E muitos jovens aceitaram o repto. E muitos não queriam, mas não tiveram outra hipótese. E agora já não voltam. O ser humano tem aquela característica mesquinha que é a de apreciar sentir-se valorizado.

Isto está mau para todos

Mas a verdade é que os tempos foram maus para todos. É público que até vários bancos, esses pilares da finança e dos bons costumes, tiveram de fechar portas.

Coitados.

Não a malta dos bancos, pois deixar falir um banco é dos negócios mais rentáveis que existe. Os coitados somos todos nós (os “Zés”) que tivemos de, uma vez mais, tirar a carteira do bolso para custear a gestão ética e responsável pela qual se regem os banqueiros nacionais.

Ainda há pouco tempo a CGD perdeu mais de 820 milhões por ignorar análises de risco e conceder empréstimos de sonho a uma franja muito seleta da população. Mas também quem nunca se esqueceu de algo importante que atire a primeira pedra. Podia ter acontecido a qualquer um. Quantas vezes não saí eu de casa e deixei a carteira na mesa da entrada? (E mesmo assim os banqueiros conseguem lá chegar… Irra!).

Parece que, devido a esta gestão danosa e irresponsável dos banco nacionais, o Estado já injetou a modica quantia de 146 mil milhões de euros na banca, dinheiro que, parecendo que não, ainda dava para uns cafés e poderia fazer falta para outros setores não tão importantes, como a Saúde e a Educação. Ao menos os responsáveis serão todos punidos por gestão danosa!

Ou então os poucos que forem presos vão andar a saltitar de julgamento em julgamento até começar tudo a prescrever.

… Se calhar é mais isto que vai acontecer.

Uma metáfora sobre a vida: os pombos são os “tipos da elite”, à espera das migalhas do Zé

A saída da crise

Apesar de este texto estar envolto numa nuvem negra de pessimismo, a verdade é que o ano transato foi de retoma. 2018 foi o ano em que saímos da crise! Champanhe para todos! Mas do baratinho.

Até porque não vale a pena festejar muito, pois há carteiras de gulosos para rechear, pelo que a parece que a próxima crise está já aí ao virar da esquina. Vejam lá se adivinham a que bolsos se vai buscar financiamento para custear os generosos aumentos da minoria que lidera as empresas e o país? Acho que, ao menos, esta malta podia ser mais transparente e iam pedir as verbas diretamente à população.

Imaginem o vosso banqueiro predileto de mão estendida num semáforo? Ou o vosso CEO de eleição a tocar pífaro na Baixa para receber umas moedas? Dinheiro para isso dava eu de bom grado!

Vamos ter todos de apertar o cinto pessoal! É por uma boa causa. É sempre.