O Zé e o Dia dos Namorados – Parte II

O Zé e o Dia dos Namorados – Parte II

Fevereiro 15, 2019 0 Por Francisco Ramalheira
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Foi com uma alegria juvenil que Maria abriu a porta do velho prédio onde morava, saltitando jovialmente as escadas até ao terceiro andar. Enquanto trauteava a alegre melodia que tocou no seu casamento, rodou a chave e entrou em casa, ansiando por ver o corpo do marido enfiado num elegante fato, pronto para a receber como a princesa que ele dizia que ela era.

Ao longos de muitas anos de relação a dois, muitas foram as vezes que o Zé conseguira embasbacar a sua adorada parceira. Mas desta vez o maxilar da pobre Maria embateu com violência no soalho ao constatar, horrorizada, que em vez de um garboso smoking, o seu excelso maridão encontrava-se esparramado no sofá, trajando um elegante conjunto de cueca branca e manga cava, apresentando na mão um mini e no regaço um elegante pacote de batatas, que comia alarvemente e de boca aberta, enquanto gritava obscenidades labregas para a televisão.

Ganhando novo apreço pela nobre instituição do divórcio, Maria interpelou o marido da forma mais calma e eloquente que conseguiu:

— MAS QUE MERDA É ESTA ZÉ?

Assustando-se mais do que com um golo do adversário do Benfica, o Zé deu um salto felino do sofá, espalhando batatas por todo o lado. Felizmente já tinha emborcado a cerveja toda.

— Está a dar o Benfica, querida. Mas porque? Tenho o jantar controlado, não te preocupes!

A fúria da Maria acalmou. Ah! Afinal sempre vamos jantar! Este dromedário não se esqueceu.

— E o que é o jantar? — questionou, docemente.

— Restos.

(O que aconteceu agora pode chocar os mais sensíveis, pelo que vamos passar de imediato para a altura em que o diálogo adquiriu um tom mais calmo e eloquente)

— Mas tu sabes que dia é hoje, Zé?

O Zé emudeceu. O passar dos anos trouxe-lhe a maturidade necessária para saber que não devia responder a primeira coisa que lhe viesse à cabeça (que, já agora, seria “é dia de jogar o Benfica”). Ao tentar descortinar qual seria a resposta certa para aquele puzzle em forma de questão, o Zé fez o seu esgar pensativo, que por acaso é muito semelhante ao esgar que fazia quando tinha prisão de ventre.

— Não sabes, POIS NÃO ZÉ?

Ora bem… Aniversário de casamento é só no Verão… Acho eu. Por isso tem de ser outra coisa. Será aniversário do primeiro beijo? Não, isso já nem ela se lembra. Será que lhe prometi fazer alguma coisa? Ou estará só a embirrar por que sim?

— Não sabes, pois não Zé?

O Zé sabia que quando chegava a altura de sua amada esposa sublinhar as palavras era porque a sua margem de manobra tinha chegado ao fim. Não podia adiar mais a sua resposta. Iria ter de arriscar. Benzendo-se mentalmente, o Zé lançou-se para fora de pé:

— A tua mãe faz anos, não me esqueci, minha querida! Vamos levá-la a jantar onde ela quiser e…

Foi então que a televisão respondeu pela Maria. O jogo chegara ao intervalo e um anúncio sobre o Dia dos Namorados despertou a atenção do bronco que contemplava a tela. O Zé começou instantaneamente a suar em bica, enquanto olhava para o sofá, objeto que certamente lhe daria guarida nas próximas noites.

— A minha mãe fez anos há duas semanas… Hoje é Dia dos Namorados. Esqueceste-te. Outra vez — o tom de voz da Maria ganhara uma tonalidade gélida que enregelou a espinha dorsal do pobre Zé, que ficou com a boca seca. Sabia que estava tramado. Mas, desta vez, o seu cérebro entorpecido não o deixou ficar mal, relembrando-o da tal noite de meados de janeiro. Com uma centelha de luz a iluminar-lhe o rosto, o Zézito sabia que tinha matéria para ripostar. Isto era tão raro que ele teve de se beliscar para confirmar que não estava a sonhar.

— Oh Maria, tu é que disseste que este ano não seria necessário trocarmos prendas, nem jantar fora e que querias ficar por casa!

Maria enrubesceu. Uma campainha do seu cérebro soou o alarme, ao lembrá-la de que aquilo que o seu querido marido dizia era verdade. Mas ela jamais poderia admitir que o seu marido tinha, pelo menos, uma quota parte de razão. Isso estava completamente fora de questão! Estava, por isso, na hora de usar o seu mais famoso trunfo: a culpa.

— Quando é que eu disse isso? Não me lembro. Se foi naquela altura em que andava engripada é obvio que naquela altura me apetecia estar em casa… Não acredito que cancelaste o Dia dos Namorados por algo que eu posso eventualmente ter dito quando estava de cama!

O Zé entrou num estado de introspeção (que lhe era muito raro). Quase que apostaria o mindinho em como quando a mulher disse aquilo estava de perfeita saúde. Valeria a pena ripostar? Valeria a pena entrar numa discussão circular e sem fim pacifico à vista? A resposta era não. Principalmente porque queria ver a segunda parte do Benfica em paz. Depois, porque sabia que se escangalhasse aquele Dia dos Namorados (mais do que já estava) esse facto lhe seria imputado em cada discussão que tivesse nos próximos 1500 anos.

— Se calhar estavas doente, sim — acabou por dizer, a contragosto. — Mas não vale a pena discutirmos, principalmente neste dia, minha querida. Vai lá preparar-te para irmos jantar aquele restaurante novo que querias experimentar.

— E tu? Não te vais arranjar?

— Só acabar de ver a segunda parte e já vou.

— Vais atrasar o nosso jantar por causa de bola?

— Não senhor! O tempo que tu te demoras a arranjar é o mesmo que eu demoro a ver a segunda parte e tomar um duche rápido! Assim não tenho de esperar por ti.

Nova erupção vulcânica. A causa agora era o tremendo exagero das afirmações proferidas pelo Zé. Mas a verdade é que o nosso amigo viu refasteladamente o jogo até ao fim, tomou o seu banhinho, vestiu a sua farpela e, no fim, ainda ficou à espera que a Maria depilasse as sobrancelhas. No carro teve a indecência de mencionar este facto, o que lhe valeu uma viagem silenciosa até ao restaurante.

Chegados ao restaurante, rapidamente se relembraram a razão de ser impossível jantar no Dia dos Namoradores sem reservar primeiro mesa. No restaurante que a Maria queria experimentar só vagava lugar depois da meia noite. E a larica que o Zé sentia não permitia esperar tanto tempo. Foram a outro restaurante. E a outro. E a outro. E depois desse ainda foram a outro.

Acabaram por ter o seu jantar do Dia dos Namorados num luxuoso restaurante especializado no comércio de hambúrgueres (que começa em “Mc” e termina com o nome daquele pato da Disney), degustando a sua refeição sentados ao lado de um casal que tinha uma ninhada de filhos, parecendo que as ternurentas crianças estavam a jogar ao jogo do “ganha quem quinchar mais alto”. Quem ganhou o jogo foi a mãe da pequenada.

Após a celebração de um acordo tácito de não-agressão até ao final do dia, o Zé não podia deixar de reparar que os olhos verdes de sua esposa espelhavam alguma desilusão, pelo que o nosso bem-intencionado amigo queria dizer algo para a alegrar.

Mas por mais que puxasse pela cabeça as palavras não lhe saiam. Foi então que se deixou de tretas e resolveu falar com o coração. E a melhor forma de o fazer era lembrar-se da coisa mais bonita que tinha visto naquele dia: o segundo golo do Benfica ao Galatasaray.

— Estás mais bonita que o golo do Seferovic. E olha que foi um golo ao angulo! O meu coração palpita mais por ti do que com um golo da vitória do Benfica no último minuto.

Aquele fora o piropo mais triste que a Maria tinha ouvido não só naquele dia, mas provavelmente em toda a sua existência. Olhando ternamente para o homem com sensibilidade romântica de um manatim estrábico que tinha diante si, sorriu. O seu Zé podia ter todos os defeitos que quisessem, mas a verdade é que não havia pessoa que se preocupasse mais consigo. E não havia outra pessoa com quem ela se imaginasse a passar o resto dos seus insípidos dias.

— Obrigado por tudo, Zé.

— Obrigado eu, por todos estes anos de infinita paciência.

E os apaixonados amantes inclinaram-se para darem um beijo romântico.

Mas para uma “Aventura do Zé” não acabar neste tom piroso e meloso, informo que na altura do beijo, a Maria enfiou as mamas no molho das batatas, enquanto o Zé entornou a coca-cola para cima de sua esposa devido à sua proeminente barriga, que por sua vez acusou o ato repentino de levantar emitindo uma sonora flatulência que teve o condão de fazer rejubilar de alegria os barulhentos filhos do casal do lado.

E viveram felizes até à asneira seguinte do Zé.

The end