O Zé e o Dia dos Namorados

O Zé e o Dia dos Namorados

Fevereiro 14, 2019 3 Por Francisco Ramalheira
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O homem é, por natureza, um espécime pouco dado a romantismos. Sabem qual é o problema do Zé? É muito homem.

De todos os dias festivos, o Dia dos Namorados é, de longe, aquele que o Zé mais abomina. Não que não ame loucamente a Maria, a sua santa esposa (que ganhou este epíteto por o aturar), mas porque os dias que antecedem o Dia dos Namorados são um autêntico calvário masculino, contribuindo para isso as expetativas exacerbadas que o macho sabe que a sua cara metade tem para aquele singelo dia. No fundo, há um acordo tácito que indica que o grau de paixão que um homem tem pela sua mais-que-tudo vai ser avaliado minuciosamente através do menu de romantismo que preparar.

O Dia dos Namorados é, portanto, uma espécie de exame final, com a pequena diferença de que aqui vais à oral apenas se passares com distinção.

O Zé não é apreciador desta época porque reprova sempre neste exame da paixão. Mas cada ano de chumbo foi também um ano de aprendizagem. Logo no primeiro ano aprendeu, por exemplo, que as mulheres não apreciam receber prendas relacionadas com o mundo da confeção de alimentos. No segundo ano aprendeu que também não apreciam receber prendas relacionadas com o mundo das limpezas. Já no terceiro ano aprendeu que dar apenas uma rosa era um ato de forretismo e de que “não se empenhara o suficiente”.

Felizmente, com o casamento, esta pressão da busca pelo “Dia dos Namorados perfeito” abrandou um pouco. Em grande parte, porque a Maria, finalmente, se rendeu às evidencias e aceitou que tinha contraído matrimonio com um individuo com a sensibilidade romântica de um manatim estrábico, pelo que passou a dar redobrado valor às flores murchas compradas à última da hora.

Mas este ano, ali em meados de janeiro, o Zé recebeu uma notícia que o deixou tão feliz que até as suas nádegas bateram palmas. Maria, do nada e a meio de um episódio de Friends no Netflix, exclama: “Zé, já estamos casados há tanto tempo, este ano não é preciso haver troca de prendas nem jantar num restaurante. Ficamos por casa”.

O Zé beijou-a apaixonadamente, como não o fazia há anos. A sua paixão por aquela mulher estava nos píncaros, pois aquela frase fora o melhor afrodisíaco de todos os tempos. Só não praticaram o louco ato do coito porque Maria estava com dores de cabeça.

Mas o Zé, ingénuo e bronco, não soube ler nas entrelinhas e descodificar a mensagem em código que sua esposa lhe endereçou. Não que ela estivesse a mentir. Naquela noite chuvosa de meados de janeiro era aquilo que ela queria para a noite de 14 de fevereiro. O que ela iria querer efetivamente quando a noite do 14 de fevereiro não teria de ser necessariamente isso.

E não foi.

Assim, e imbuída do espírito romântico e consumista que invade as ruas, as lojas e as redes sociais, a Maria acordou bastante entusiasmada na manhã fria e cinzenta do dia 14, ansiando pela prenda e jantar de logo à noite, despedindo-se do marido com um beijo repenicado. Nunca mais se lembrara do que tinha dito na fatídica noite de meados de janeiro.

O Zé também acordou bastante entusiasmado na manhã fria e cinzenta do dia 14. Mas era porque às 17h55 jogava o Benfica contra o Galatasaray. Nunca mais a pobre alma se lembrou do Dia dos Namorados. O espírito romântico e consumista que invade as ruas, as lojas e as redes sociais passou-lhe completamente ao lado, assim como as indiretas que a sua esposa lhe mandou, quando o informou que prenda gostaria de receber.

Estavam, portanto, reunidas todas as condições para um Dia dos Namorados bem passado na casa do Zé. Neste preciso momento a Maria deve estar perplexa com a sua surpresa.

Amanhã, neste mesmo espaço relataremos a noite de sonho que espera o nosso amigo Zé. Até amanhã!