O Zé vai ao ginásio

O Zé vai ao ginásio

Fevereiro 10, 2019 0 Por Francisco Ramalheira
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Tal como tantas almas imbuídas pelo espírito de renovação que o Ano Novo nos traz, o Zé decidiu que iria fazer mais desporto. Já não havendo condições para jogar à bola com regularidade, resolveu inscreveu-se no ginásio no início de janeiro. Nos primeiros tempos, estava moderadamente entusiasmado, cometendo a loucura de ir 2 ou 3 vezes por semana! Ia a aulas de grupo, ia à piscina, ia para as máquinas da musculação… Até começou a comer mais frutas e verduras e deixou de enfardar vinte quilos de bolos por semana. O que para uma enfardadeira como o Zé era um enorme feito

O Zé sentia-se cada vez mais forte e saudável. A sua vida estava a mudar! No entanto, quanto mais pança diminuía, mais a assiduidade minguava.

Em março, o Zé já não metia os pés no ginásio.

Como o Zé há mais badochas que no início do ano tem as melhores das intenções e que, com o passar dos dias vão esquecendo o seu compromisso com o exercício físico, ao mesmo tempo que vão aceitando a inevitabilidade que é ter um corpo de morsa.

Embora a principal causa de desistência seja, indiscutivelmente, a falta de força de vontade, a verdade é que há outras condicionantes que reforçaram a desmotivação do nosso amigo Zé. O Caca Gambuzinos, como todos sabem e reconhecem, é uma plataforma que produz conteúdos de interesse público, pelo que venho por este meio enumerar alguns dos flagelos que assolam os balneários nacionais e que desmotivam os cidadãos comuns a tornarem-se em bombas de sensualidade caliente:

1. O balneário

Aqui mora o maior pesadelo de muitos frequentadores de ginásio.

Há dois tipos de indivíduos num balneário: aqueles, como o Zé, que entram, fazem o que tem a fazer e saem e outros que adotam o balneário como a sua segunda morada. Estes últimos, tem a particularidade de serem completamente imunes a eventuais cheiros nauseabundos (que naturalmente existem em locais onde muita gente defeca) e contribuindo de sobremaneira para os problemas paisagísticos que assolam os balneários nacionais.

E como contribuem eles para este flagelo? Ao assumirem o balneário como sua casa, fazem questão de se passearem como vieram ao mundo por todas as divisões do balneário, balouçando e pavoneando o seu intrépido companheiro de um lado para o outro. Uma coisa é nudez, que é totalmente normal num balneário, outra é fazer autênticos desfiles de penduricalhos farfalhudos pelo balneário fora ou encetar amenas cavaqueiras com outrem, enquanto fazem questão de não se vestirem.

O Zé recorda, sem saudade, os indivíduos que iam ter consigo — para comentar a última aula de grupo, falar de futebol ou lançar outro tema inócuo do género — com as suas pendurezas de fora, oferecendo-lhe um espetáculo de fantoches medonho que o Zé não tinha, de forma alguma, requisitado.

Ainda por cima, o Zé constatou que muitos destes nudistas de balneário são exatamente os espécimes que menos razões teriam para mostrar orgulho naquilo que estão a exibir, pelo que criou um projeto de crowdfunding para comprar cuecas para esta malta, criando o movimento #olugardapilinhaédentrodacuequinha.

A quantidade de pessoal a contribuir foi assustadora.

2. As aulas de grupo

As aulas de grupo têm duas fases: os primeiros cinco minutos e o resto.

Nos primeiros cinco minutos tudo é maravilhoso: estamos motivados para mais um treino! Queremos suar que nem uns suínos! E aquela jeitosa das calças de licra está mesmo à nossa frente!

Tudo muda quando a aula começa. E se nos primeiros 5 minutos o Zé ainda acompanhava os exercícios, a partir daí sentia-se uma baleia fora de água, a quem era pedido que fizesse umas cabrioladas completamente impossíveis. Em pouco tempo, o Zé já suava de sítios muito pouco sensuais, enquanto sentia a jeitosa das calças de licra, paulatinamente, a afastar-se de si, enquanto exibia um esgar de repugnância.

E o Zé não a podia censurar. Afinal de contas o barulho que fazia para normalizar a respiração era muito semelhante ao de um urso pardo
a procura de fêmea para acasalar.

Foi também numa aula de grupo particularmente cansativa que o Zé descobriu que tinha de ter muito cuidado com o que ingeria antes de entrar na aula. Por exemplo, comer uma feijoada ao almoço era sinonimo de se formar à sua volta uma enorme clareira.

3. A sauna

Há sempre um velho que olvida a regra básica de que ou se deve ir com fato de banho para a sauna ou, caso apenas se leve uma toalha à volta da cintura, não se pode, em nenhuma ocasião, abrir as pernas. Ninguém gosta de ver a horta suada de outro individuo. Muito menos quando essa mesma horta já está toda encarquilhada.

A marca que a referida horta do referido idoso deixou no estrado de madeira é uma traumatizante imagem que o Zé irá guardar até ao fim dos seus dias.

4. Máquinas todas suadonas

As máquinas de musculação dos ginásios estão em contacto com inúmeros rabos suados, costas suadas, genitais suados e mãos suadas por dia. Este pensamento já é, por si só, altamente motivador para a utilização destas maquinetas.

Embora seja obrigatório o uso de uma toalhinha, a verdade é que há energúmenos que não a usam, enquanto outros (aos quais apelido de “Homens-Fonte”) suam de tal forma abundante que não há toalha que lhes valha.

Até aqui tudo mais ou menos bem, pois suar elimina as toxinas e quem vai ao ginásio é, supostamente, com esse intuito. O problema são os que não limpam as suas secreções sudoríparas quando saem das máquinas, empestando aquilo que é suposto ser de todos com uma bonita argola de suor alheio. Um pitéu.

O Zé ainda tem suores frios quando se lembra daquela vez em que, distraidamente, não conferiu o estado da máquina antes de se sentar, sentindo de imediato nas costas uma sensação de humidade morninha. Foi o salto mais rápido que deu em toda a sua vida.

5. Filantropia

Outra possível razão para o abandono do ginásio é o preço. Não está em causa a justiça do mesmo, mas a verdade é que, quanto menos vezes lá metermos os pés, mais caro é o preço de cada ida (visto que o valor da mensalidade é sempre o mesmo).

Não sendo possível pagar apenas as vezes que efetivamente vai ao ginásio, o Zé teve de arranjar uma forma peculiar para dar a volta a esta situação.

Como acontece com os seres humanos que tem coisas como alma e sentimentos, o Zé também gosta de ajudar o próximo. Neste sentido, descobriu que se não meter os coutos no ginásio, mas continuar a desembolsar a modica quantia da mensalidade isso, em vez de estupidez, pode ser considerado filantropia. No fundo, o Zé está mensalmente a contribuir para a sobrevivência de uma prestigiada instituição, através da concessão de um simpático donativo.

Se todos fossem como o Zé, o mundo em que habitamos seria um local mais agradável.

Quando não há verba para pagar a mensalidade, há estabelecimentos que aceitam outro tipo de pagamento

Para terminar, gostaria apenas de informar que após ter deixado de ir ao ginásio em março (mas mantendo a sua posição de pagante), o Zé apenas voltou nas últimas semanas de Primavera, numa tentativa frustrada e desesperada de eliminar a tempo do verão aquela gordurinha que quase lhe davam qualificações para apresentar o Preço Certo.

Logicamente que, tão em cima, o resultado desta nova vida no ginásio foi nula, levando a que, a meio do verão, o Zé já não lá metesse mais os pés.

Adivinham quando é que o nosso amigo voltou? No início do ano novo seguinte, convicto de que “desta vez é que é”.

E é este o ciclo de ginásio. Que para muito bom filantropo se repete infinitamente e em loop para toda a eternidade.