Jogar à bola

Jogar à bola

Fevereiro 3, 2019 0 Por Francisco Ramalheira
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Há poucas atividades que são igualmente prazerosas em criança e adulto. Jogar à bola é, claramente, uma delas. Outra é dar um pantufinha num metro à pinha e fazer um esgar de reprovação que, automaticamente, nos inocenta daquele crime hediondo aos olhos do resto da carruagem.

No entanto, embora a paixão pelo jogo se mantenha quando temos mais 20 anos (e mais 20 kgs), a verdade é que a forma como jogamos muda drasticamente. E na maioria das vezes muda para pior. Atentemos então às seis principais diferenças:

1. Arranjar, pelo menos, dez manfios para uma peladinha

No tempo da escola um campo de futebol tinha o mesmo problema da África Subsariana: sobrelotação populacional. Até as condições sanitárias era mais ou menos as mesmas. Por vezes havia tanto puto a querer dar uns pontapés numa bola que tínhamos uma (ou mais!) equipas de fora que iam entrando em campo à vez.

Agora? Há um grupo e whattsapp com 4 ou 5 dezenas de calmeirões e quando se tenta marcar um jogo é uma verdadeira odisseia épica para arranjar 10 indivíduos que possam e queiram jogar à bola no mesmo dia, no mesmo local e na mesma hora.

Nestas convocatórias há sempre aquele mais aficionado (e, vá, chato), que conta os presentes um a um e que tenta fazer publicidade ao grande derby em todo o lado na esperança e conseguir ter 10 craques para um singelo joguinho. Na maior parte das vezes é ele que tem de ligar para desmarcar o campo, quando se rende à evidência de que falta meia hora para o início da partida e que ainda só arranjou três jogadores (um dos quais a sua avó).

2. O equipamento

Nos tempos de meninice, não necessitávamos de traje de gala para jogar à bola. Jogávamos puro e simplesmente como o que tínhamos vestido nesse dia. Quantos de nós não pontapeavam uma bola pelo recreio da escola trajando umas sandálias (por vezes com meia branca), botifarras pesadas, camisolas de lã que picam nos locais mais recônditos, casacões de malha, calças de ganga bem apertadinhas na zona escrotal, entre outras peças de roupa altamente confortáveis para a prática do desporto?

Quantos derbies escolares não disputei eu com aqueles boxers mais largueirões, com os quais dás um sprint e ficas com um testículo de fora. Depois tinha que, disfarçadamente, por a mão dentro da calça de ganga (também ela altamente confortável para jogar à bola) para ajeitar o material. Depois voltava a sprintar. E repetia o processo de arrumação.

3. As condições climatéricas

Jogar à chuva. Juntamente com o escorbuto e com a gonorreia formam a Santíssima Trindade das coisas que eu evito. Mas nem sempre foi assim (apenas no caso do jogar à chuva; escorbuto e gonorreia nunca apreciei).

Primeiramente, para além de ser incomodo jogar enquanto água gelada nos escorre pelo rego abaixo ou ensopa a roupa ao ponto de os mamilos e a camisola se tornarem gémeos siameses, fundindo-se harmoniosamente num indesejado momento Dragon Ball, a idade adulta traz-nos uma perspetiva diferente da vida, pois pensamos no dia de amanhã. Ao recebermos uma convocatoria para um dia de diluvio pensamos “Tem juizinho, meu menino, está a chover muito e ainda te constipas! E esta semana tens aquele projeto muito importante e chato no trabalho. Não podes mesmo faltar!”

Inegavelmente, a idade transforma-nos a todos nuns conas.

Em criança era o que faltava uma coisinha tão prosaica como “chuva” evitar que jogássemos uma peladinha. Quantos nomes não chamamos nós (mentalmente) às preocupadas auxiliares de educação que nos mandavam acabar o jogo e ir para dentro do edifício apenas, pasmem-se, porque chovia a cântaros? Uma vez uma contínua da minha escola usou o seu tom de voz ditatorial e galináceo para terminar um jogo, numa altura em que eu ia isolado para a baliza! Epá, é verdade que estávamos todos ensopados e até havia um puto que ficou quase com uma fratura exposta após um bonito tralho… Mas eu ia isolado!

Recordando as imortais palavras de um tipo da minha equipa de futebol: “jogar à bola à chuva é bom, porque assim não tens de tomar banho depois”.

Para quem quiser uma profunda frase em latim para tatuar nas costas tem aqui um excelente exemplo. Fica “pediludium de pluvia bona est, quia non habent retribuere digneris deinde post te”

4. O campo

Quando éramos jovens, qualquer muro ou buraco era passível de ser uma baliza. Na praia dois montinhos de areia eram uma baliza. Na escola, uma parede já carcomida pelas boladas era o ideal para espetarmos uns balázios. Na casa de um amigo, uma garagem amolgada era o paraíso para concretizar tentos de belo efeito. Qualquer buraco servia para fazer uma baliza. Muitas namoradas/esposas por este Portugal fora se chatearam com os seus mais-que-tudo por também levarem esta máxima para o leito conjugal.

Não me lembro sequer de me preocupar com uma mariquice como o piso em que ia jogar. Bastava haver bola (e às vezes nem isso, jogava-se com uma pedra). O resto era acessório.

Agora? A idade transformou-nos numas donzelas. Uns não jogam em madeira ou empedrado por causa dos joelhos (aqui este velho encontra-se nesse lote de pussies). Na praia já ninguém joga porque tem receio de expelir inadvertidamente um pulmão. A maioria, portanto, só joga em sintético, mas não quando o campo está demasiado molhado. Ou demasiado seco.

5. A recuperação

Quando era criança quando não fazia jogos parvos como estes, jogava à bola no intervalo da manhã, no intervalo do almoço, no intervalo da tarde e, por vezes, depois das aulas. E também em casa. Quando era adolescente jogava praticamente todos os dias na escola e ainda tinha treinos e/ou jogos ao fim-de-semana.

Obviamente que me cansava. Mas nada que umas seis horinhas de sono não fossem capazes de curar todas as maleitas e revitalizar este corpinho atlético.

Corpinho atlético esse que, agora, parece o de uma lampreia albina. E o corpo de uma lampreia já demora mais tempo a recuperar depois de um show de bola.

Primeiramente, mal o jogo termina e nos sentamos, constatamos que a idade pesa exatamente na zona traseira, pois parece que o nosso rabo fica grudado ao assento, acariciando-o afetuosamente e recusando-se a deixá-lo. É necessário proceder a um esforço hercúleo para conseguirmos desalapar as nádegas do banco, de forma a nos podermos dirigir para casa.

Posteriormente, sentimo-nos velhos durante o banho. Sabe sempre bem levar com água quentinha no lombo, mas quando todos os nossos músculos estão doridos o que sai do chuveiro parece um balsamo revitalizante criado pelas mãos de Deus Nosso Senhor, no qual nos queremos aninhar e lá ficar para sempre… Por norma, só saímos do duche quando nos lembramos que a conta da água sai do nosso bolso.

Por último, o mais doloroso de tudo: o dia seguinte. As seis horas de sono apenas servem para nos deixarem ainda mais cansados. Ao levantarmo-nos, constatamos horrorizados que nos dói o corpo em locais que nem sabíamos que tínhamos, enquanto que o joelho que no dia anterior levou uma entrada (que, vá lá, nem foi nada de especial) está mais roxo que uma ameixa podre.

À chegada ao trabalho é sempre fácil perceber quem é que na noite anterior armou-se em jovem e foi jogar à bola: são aqueles que entram a coxear, com um semblante meio esverdeado e a pôr café na veia.

6. O modo de jogar

Na nossa adolescência, parecemos uma manada de uma ganadaria premiada, correndo selvaticamente atrás de uma bola.

Conforme a idade avança, a nossa abordagem ao jogo muda. Já não corremos tanto à maluca, pois temos a experiência (que apenas a maturidade que o passar dos anos traz) para nos auxiliar. Agora, supostamente, “pensamos mais o jogo”, que é uma forma simpática de dizer “não podemos com uma gata pelo rabo, por isso temos de frequentemente de jogar em velocidade de idoso paraplégico, de forma a evitarmos um enfarte do miocárdio em pleno relvado”.

Mas, ao menos, a grande maioria de nós admite (com alguma dor à mistura, é certo) esta mudança na forma de jogar. Contudo, há aqueles iluminados que ainda não o descobriram/assumiram pelo que, quando recebem o esférico, encarnam (na cabeça deles) o Messi ou o Ronaldo, pondo-se a correr desalmadamente e sem critério, podendo ocorrer uma de duas coisas: ou perdem imediatamente a bola ou tentam fintar o adversário. No entanto, como não tem capacidade para tal, resolvem andar às voltas sobre si mesmos. Muitas vezes. Lixando, portanto, por completo o ritmo do jogo. Às vezes enquanto estes tipos estão “às voltas na rotunda” quase que dá para ir mandar uma mija ou uma cagada. Quando voltarmos a bola ainda estará no mesmo sítio.

Conclusão

Estão agora mesmo a marcar um jogo para amanhã. A primeira coisa que fui ver foi se dava chuva para aquela hora. Parece que há aquela chuvinha molha-parvos. Como sou responsável não vou. Até porque 2ª feira tenho uma reunião importante.

Isto é o que eu começo por dizer para mim mesmo. Mas já me conheço e sei que vou acabar por aderir a este importante evento. E amanhã vou parecer um zombi, daqueles já estropiados e em estado quase terminal, que já deambulam pela rua com as vísceras de fora… Mal posso esperar pela hora do jogo!