O Homem que Mordeu o Cão

O Homem que Mordeu o Cão

Janeiro 29, 2019 0 Por Francisco Ramalheira
Partilhai e espalhai a mensagem gambuziana

Quem cresceu nos anos 90 tinha uma opinião muito particular sobre a rádio: era aquela coisa que estava encrustada no carro dos nossos pais e que dava música durante as viagens de carro. Numa era com televisão, vídeo e videojogos, os petizes já não se entretinham a ficar sentadinhos e quietinhos a escutar a boa e velha telefonia.

E eu partilhava desta opinião. Até ter conhecido a rubrica radiofónica que dá nome a este artigo, da autoria de um tal de Nuno Markl e que versa sobre o relato de noticias cómicas e/ou bizarras. Uma rubrica com a minha cara, portanto.

A minha primeira vez

A primeira vez que ouvi “O Homem que Mordeu o Cão” foi para aí em 1997 ou 1998. Era uma manhã chuvosa e eu sentia uma dor estranha na barriga. Embora me tenha queixado do desconforto intestinal, a verdade é que o meu plano de ficar em casa a ver desenhos animados não teve o sucesso almejado e as minhas jovens ossadas foram mesmo passear para a escola. Lembro-me de mal a professora começar a falar eu sentir as entranhas as revirarem-se em agonia, dando-me a indicação de que o trabalho de parto estava prestes a começar.

Lembro-me de correr como se a minha vida dependesse disso (e dependia). O que se passou na casa de banho não foi nada bonito. E deve ter demorado de tal forma que tive de ser salvo por uma simpática continua, certamente alertada pela minha professora primária pelo tempo que estava a demorar.

Tenho a memória nítida de estar deitado, em profunda agonia, num banco corrido de madeira, enquanto sentia os intestinos a clamarem por eutanásia, chegando-se ao pé de mim a Ana, uma simpática funcionaria da secretaria da escola — que, entretanto, tinha telefonado à minha mãe para me vir salvar — com um pequeno rádio portátil e disse:

— Conheces “O Homem que Mordeu o Cão”?

Abanei a cabeça. Não conhecia, nem estava com disposição para conhecer.

— É muito giro. Vais gostar! — e dito isto, aumenta o volume da radio.

E é esta a minha primeira recordação desta rubrica radiofónica. Dores lancinantes de barriga, uma má disposição extrema e expelição de fezes em catadupa, aliviadas graças a um poder imensurável e que torna tudo melhor: o humor. A partir daí, Nuno Markl ganhara um pequeno, mas grande, fã. E eu ganhara uma simpática viagem até ao hospital.

Ouvir rádio no século passado

Os mais novos agora vão achar que eu sou fui criança em tempos pré-históricos, mas a verdade é que, no final dos anos 90 a internet ainda não estava massificada como hoje e o conceito de podcast era algo alienígena. Isto significa que as rubricas radiofónicas não eram gravadas, para que depois as pudéssemos ouvir quando bem nos apetecesse. Não senhor. Ou ouvias em direto ou já eras.

Não me lembro bem a que horas é que a rubrica dava, mas sei que, de vez em quando ainda a apanhava num velho radio que o meu pai tinha na casa de banho, sendo a companhia ideal para enquanto estava a lavar os dentes ou a efetuar o tarolo matinal. Lembro-me também de que raramente conseguia ouvir o episodio até ao fim e que, normalmente, quando a história começava a ficar interessante era quando a minha santa progenitora grasnava para eu sair da casa de banho, para não me atrasar para as aulas. Enfim, prioridades. E ela claramente tinhas as dela trocadas.

O Cão em livro e ao vivo

Assim, e com muita pena minha, só consegui começar a acompanhar devidamente esta saga canídea quando ela alargou horizontes, chegando aos escaparates das lojas sob a forma de livro (que adquiri e devorei) e, sobretudo, com os espetáculos ao vivo transmitidos na SIC Radical, nos quais pude, pela primeira vez, ver a bonita fronha do individuo responsável por tudo isto.

Este espetáculo ao vivo, para mim, tinha um enorme chamariz: o Stand Up; estilo de comédia que hoje está nas bocas do mundo, mas que, na época era desconhecido por muitos, tendo sido este programa e o Levanta-te e Ri os principais responsáveis pela sua chegada ao nosso país. Assim, no “O Homem que Mordeu o Cão” vi, pela primeira vez, alguns dos meus humoristas favoritos de sempre a atuar pela primeira vez, como um tal senhor Ricardo Araujo Pereira ou uma exmo. Bruno Nogueira.

Ricardo Araújo Pereira no HQMC

Mas como o que é bom não dura para sempre, “O Homem que Mordeu o Cão” acabaria por chegar ao fim em 2003, conseguindo praticamente 7 anos de emissão, o que é um feito assinalável. Poucos programas de rádio se podem gabar de tamanha popularidade e longevidade. Mas mais impressionante que esta enorme durabilidade é o facto de, dez anos depois, a rubrica ter regressado à antena da Comercial.

O Cão em 2013

Em 2013 já estávamos numa era em que a internet permitia o acesso facilitado de todos às chamadas noticias parvas, havendo inclusive vários canais e sites dedicados para o efeito. Juntando este enorme pormaior à enorme expetativa dos fãs no regresso de uma rubrica tão amada podemos facilmente concluir que estavam aqui todos os ingredientes para que esta sequela não tivesse sucesso. A segunda encarnação de “O Homem que Mordeu o Cão” tinha tudo para ser daquelas sequelas manhosas de Hollywood, cujo sucesso comercial e qualidade da primeira entrega obrigam a que haja uma sequela que, em termos qualitativos, não consegue sequer fazer sombra ao produto original.

Mas a verdade é que teve sucesso. E muito! Outra vez. E, para mim, isso apenas se deve a uma coisa: ao toque pessoal e à paixão que o Nuno dá às suas histórias. É isso que faz a diferença entre lermos a notícia num site qualquer ou ouvirmos “O Homem que Mordeu o Cão”.

Obrigado caro Markl. Obrigado por anos de histórias e dedicação, mas, principalmente, por há uns anos me teres feito soltar umas gargalhadas quando me estava a esvair em dores de barriga num desconfortável banco de madeira de escola.

Contigo a diarreia é mais fácil de suportar. Não há maior elogio do que este.

Era isto que eu gostava, um dia, que alguém dissesse de mim. Para além de que dava uma supimpa frase para por na minha lápide.