O Zé vai assaltar o frigorífico à noite

O Zé vai assaltar o frigorífico à noite

Janeiro 27, 2019 0 Por Francisco Ramalheira
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O Zé amaldiçoava a sua própria existência. Com as mãos, acariciou a sua pança saliente, cujo relevo tinha definitivamente aumentado nos últimos dias.

 Maldita época das festas…, rosnou o nosso pançudo amigo, enquanto mentalmente revia a quantidade industrial de comida que tinha enfardado nos últimos dias. Na boca, tinha ainda o doce sabor do pudim de ovos que tinha ingerido selvaticamente há uma hora atrás, numa visita de médico ao frigorífico.

Embora se sentisse mais cheio que um porco antes de ir para o matadouro, o Zé não conseguia adormecer… Na sua cabeça pairava a doce imagem da taça de leite-creme feito pela sua santa avó, que repousava numa taça de cristal no interior do alvo eletrodoméstico.

Aaaaaaaah o Zé queria tanto papar aquele leite-creme! Mas quando fora apanhado pela esposa a comer a enésima taça de pudim, recebeu a ameaça:

— Zé! Seu suíno badocha. Acabaste com o pudim todo! Já viste bem o tamanho obsceno e disforme da tua barriga? Queres que fique viúva?

— Não amor — respondeu maquinalmente o suíno badocha, enquanto olhava para o seu corpo de lampreia gelatinosa.

— E agora que acabaste com o pudim, sei que vais passar para o leite-creme! Não abanes a cabeça Zé Maria! Eu conheço-te muito bem. Pois fica sabendo que sei perfeitamente qual é o nível de doce que está na taça… Se amanhã de manhã o nível baixar, estás tramado.

Só havia duas coisas na vida que o Zé temia: os vegans que querem angariar novos seguidores para a sua seita e aquele timbre de voz gélido e cavernosos que a mulher lhe dirigia quando fazia uma ameaça. Ao lembrar-se das palavras da sua amada esposa sentiu um arrepio enregelar-lhe a espinha.

Tenho de ser forte. Tenho de adormecer. Não posso comer mais! Pelo menos hoje. Amanha é um novo dia.

Virando-se para o lado, o Zé tentou a todo o custo adormecer. Sabendo da importância que tinha cair no sono, recorreu à sua tática infalível para evitar insónias: rever mentalmente os monólogos que a sua santa sogra fazia à mesa, durante os almoços, nos quais relatava aventuras fascinantes da sua semana, tais como uma ida ao médico para lancetar um quisto ou o dia em que foi ao supermercado e comprou umas uvas muito boas, e que estavam com 20% de desconto, mesmo ao pé dos lacticínios onde encontrou uma senhora muito simpática que estava a oferecer promoções de queijos numa embalagem muito querida e que…

Não funcionou.

O Zé continuava a ouvir o leite-creme sussurrar-lhe aos ouvidos num tom sensual “Come-me… Meu badocha suíno. Come-me todo”. O Zé estava cheio de vontade de trair a mulher com o leite-creme.

E como nenhum homem é feito de ferro, o Zé olhou para a sua esposa, certificou-se de que dormia profundamente, retirou os cobertores com a ligeireza felina de quem está a cometer um crime hediondo e, de pé ante pé, dirigiu-se até à cozinha. Sem ligar as luzes, abriu devagarinho a porta do frigorífico, retirou cuidadosamente a taça com o famoso leite-creme e recostou-se numa cadeira da cozinha.

Pegando numa colher pequenina, o lambão disse para si mesmo que “se comesse apenas duas colherinhas, a sua mulher não iria reparar”. Confortando por esta ilusão de que tinha algum autocontrolo, o Zé iniciou o processo de degustação do leite-creme.

Ao meter a primeira colher à boca ouviu sininhos a ressoarem-lhe nos tímpanos, enquanto um coro de vozes celestiais entoava um hino de louvor à sua avó

Que delicia! A sua avó tinha feito o melhor leite-creme de sempre! Saboreando o doce com um prazer quase ejaculatório, as duas colherinhas do Zé rapidamente se transformaram num momento de enfardanço épico com o nosso amigo a demonstrar todo o seu autocontrolo enquanto emborcava infinitas colherinhas de doce, no intervalo das quais mal havia espaço para respirar. O Zé é daqueles indivíduos adoráveis que, numa festa, serve-se de doce num pratinho pequeno e em pequenas quantidades porque “só quer mesmo provar”, mas depois quando ninguém está a ver (ou quando julga que ninguém está a ver) repete o doce mais uma dúzia de vezes.

É o chamado “Lambão hipócrita”. Há muitos senhores e senhoras por aí a sofrer desta maleita. Tenham cuidado com eles.

No entanto, o prazer de degustação foi selvaticamente interrompido quando, de repente, as luzes da cozinha se ligaram.

O coração do Zé caiu-lhe aos pés quando viu a juba desgrenhada da sua querida esposa, que tapava amiúde os seus olhos raiados de sangue, que o perscrutavam avidamente e com repulsa. O Zé sentia uma aura assassina formar-se à volta da sua querida Maria. Se fosse um episódio do Dragon Ball ela já se estaria a transformar em super guerreiro.

Com um tom arrepiante a divórcio na voz, a Maria vira costas, encolhe os ombros e profere as imortais palavras, num tom gélido e cavernoso:

— Faz o que quiseres.

O Zé já era casado há tempo suficiente para saber que era preferível ser esquartejado violentamente no lombo e depois enrabado por uma trupe de moçambicanos avantajados do que ouvir aquelas palavras, que tinham sempre uma mensagem subentendida, cujo significado era, invariavelmente, “se não fazes aquilo que eu acho que está certo vais passar uma temporada a dormir no sofá”.

O mal estava feito. O Zé agora teria de optar pelo mal menor. O difícil era, aquela hora da noite, perceber qual era essa opção. Assim, na cabeça do nosso amigo alarve, formaram-se estas opções:

  1. Não encarar a realidade; fazer de conta que a aparição da mulher tinha sido uma miragem, pelo que podia continuar a degustar o leite-creme. Esta opção é apenas recomendada a indivíduos com um gigantesco par de testículos, estando dispostos a, no curto-prazo, voltar a abraçar a vida de solteiro;
  2. Contemplar seriamente a possibilidade de emigrar; de preferência para localidades longínquas e inóspitas, como o Bangladesh, Cacém ou o Suriname;
  3. Ser sabujo; correr até à beira da esposa, implorando-lhe pelo seu perdão, clamando que a ama mais do que ao Benfica e prometendo que iria entrar numa dieta rigorosa a partir do dia seguinte, na qual ela pode controlar todos os víveres que ele ingerir;
  4. Assumir a culpa e dizer que a esposa tinha toda a razão; assumindo a sua condição de “Lambão hipócrita”, imunda e incorrigível. Como qualquer vulgar criminoso, teria de fazer trabalho comunitário, sob a forma de lavagem de louça e muda de fraldas defecadas pela criança que ambos geraram.

Enquanto avaliava as suas opções, o sono apoderou-se do Zé e o impensável aconteceu: o pobre badocha adormeceu na cadeira da cozinha, com a taça de leite-creme docemente repousada no regaço, sendo acordado apenas no dia seguinte, por uma esposa furibunda que o colocou a pão, água e sementes de chia por uma longa temporada.

#prayforze