Ética sanitária

Ética sanitária

Janeiro 24, 2019 0 Por Francisco Ramalheira
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A ética é um conceito muito em voga nos dias de hoje. Pelo menos do ponto de vista conceptual, pois em termos práticos cidadãos e empresas mandam a ética às malvas sempre que tem oportunidade. É como aquelas velhas beatas que passam a vida a proclamar os valores do cristianismo e depois à primeira oportunidade estão a falar mal nas costas de um mártir qualquer.

Embora se fale de ética adaptada a inúmeros contextos, lamentavelmente os foruns de discussão ainda não chegaram ao mundo sanitário. Estou cá para suprir essa imperdoável lacuna. De nada.

O conceito

E o que é a ética sanitária? No fundo é sensibilizar os cidadãos para um conjunto de comportamentos que devem ser adotados por todos, de forma a garantir que cada vez que vou a uma casa de banho publica não tenha que reprimir uma vontade de regurgitar o almoço cá para fora.

Vamos todos lutar por um amanhã melhor. Por um amanhã com sanitas sem selo e urinóis sem pelo. Estamos juntos.

#sanitassemselourinóissempelo

Para melhor organização, vamos então segmentar os locais onde a ética sanitária deve ser urgentemente divulgada.

Urinóis

Um urinol é uma peça de loiça que, tal como o nome indica, serve para urinar. E este ato, por norma, dura meia dúzia de segundos (aos quais podemos juntar outra meia dúzia referente ao tempo em que sacudimos as pingas que ficaram no nosso fiel companheiro).

Assim, não é justificável usar o urinol para:

  1. Local de depilação; a desbastação de pilosidades da zona do baixo ventre deve ser feita em casa. O urinol é bonito como é, pelo que não necessita de ser ornamentado com frondosas pilosidades.
  2. Local de profundo relaxamento; é comum indivíduos considerarem o urinol como se fosse um espaço fechado, pelo que relaxam ao ponto de dispararem potentes flatos. Da mesma forma que não é simpático soltar gases mortíferos quando passamos por alguém na rua, não é por estarmos num urinol que essa prática é aceite. Um urinol não nos dá licença para peidar. Esta prática só pode ser aceite caso estejamos a urinar ao lado de amigos. Nesse caso, disparem à vontade.
  3. Local de para travar valorosas amizades; ponto prévio: se há uma linha com 10 urinóis e apenas um deles está ocupado e sentes que o posicionamento correto é exatamente ao lado do único tipo que está a mijar, há alguma probabilidade de seres um daqueles senhores que aprecia fazer amor com outros senhores. Nada contra! Mas, pessoalmente, confesso que fazer xixi lado a lado com outros senhores não é propriamente uma tarefa pela qual nutra particular afeição. Os urinóis não servem para fazer amigos, pelo que para evitar constrangimentos de terceiros sugiro que, se possivel, se opte por escolher um urinol sem transeuntes à volta.
  4. Local de contemplação dos restantes urinóis; deixei para último o ponto mais importante desta lista. Aconteça o que acontecer, nunca, (mas nunca!) espreitem o berimbau do individuo que está a urinar ao vosso lado. É deveras desagradável estarmos descontraidamente a esvaziar a bexiga, quando sentimos o olhar do símio que está ao nosso lado a espreitar o nosso amigo de infância. Mesmo que seja de soslaio ou seja uma inócua espreitadela curiosa não o façam. É desconfortável à brava. À pala disso já houve muitos xixis que fiz mais depressa do que devia (e depois arrependi-me).

Todos juntos vamos criar este bonito movimento e espalhar esta mensagem pelo mundo:

#Naoespreitemapilinhadovizinho

Sanitas

Neste departamento tenho 3 procedimentos que se devem adotar no âmbito da ética sanitária e que são elementares para respeitar o próximo coitado que for usufruir dos lavabos:

  1. Para os incautos que não sabem, a sanita tem um botão denominado “autoclismo”, que deve ser puxado sempre que defecamos. O tarolo é para mandar pelo cano abaixo, não para ser deixado a marinar em banho-maria. É um conceito muito simples: defecar, carregar no botão. Não custa nada. E, no entanto, há trogloditas que ou não percebem isto ou tem um prazer mórbido em que quem vier atrás de si tenha a honra de poder contemplar a maravilha que saiu do seu esfíncter. Afogar o cagalhão é, para mim, uma regra elementar da ética sanitária. Não se esqueçam.
  2. Ao lado da sanita, costuma existir um utensílio parecido com uma escova de dentes em tamanho gigante (mas não confundam a finalidade dos dois objetos! Cuidado). Apresento-vos o piaçaba, que embora tenha uma função pouco digna, é tremendamente importante, pois limpa eventuais resquícios do tarolo referido no ponto anterior que tenham ficado teimosamente alojados na elegante louça sanitária. Quanto tal acontece, o procedimento a tomar é muito simples: pegar no piaçaba e acabar com os resquícios do tarolo. Simples e não dá grande trabalho, por isso façam-no. Não é agradável entrar num cubículo para efetuar cocó e constatar que o anterior inquilino jantou no Mc Donalds.
  3. A sanita é um buraco com um diâmetro bastante aceitável. Para além disto, quando urinamos estamos perto da sanita. Penso que ninguém mija a cinco metros para efeitos de recreação. Neste sentido, não consigo perceber as poças de urina requentada que polvilham o chão das casas-de banho públicas e as argolas das sanitas. É assim tão difícil levantar uma tampa de plástico e estar concentrado durante os 10 segundos que dura o singelo ato de urinar, de forma a garantirmos que acertamos no buraco? Se falhamos este buraco — que é tão grande — como será com outros mais diminutos? Fazer xixi fora da sanita é um péssimo cartão-de-visita sexual.

Bebedouros

Saindo um pouco do acolhedor âmbito do wc, passemos então a um sub-ramo da ética sanitária, que implica o estudo dos comportamentos no exterior. Aqui debruço-me sobre o delicado tema dos bebedouros, um fundamental objeto que, sob a forma de repuxo, hidratam os sedentos transeuntes que por eles passam.

No entanto, sendo uma fonte de água para todos, devemos bebericar o vital elixir da vida com o mínimo de classe, ou seja, dar linguadões a bebedouros públicos é uma prática que não é suposto acontecer.

A água até sai em forma de jato para evitar que um jagunço qualquer tenha de colocar os seus lábios gretados e cheios de herpes naquele orificiozinho que parece a ponta de uma gaita. Eu, confesso, não aprecio beber água que sai pelo orifício onde um individuo ou individua (sou fervoroso defensor da igualdade de género na badalhoquice) esteve a esfregar vigorosamente a sua língua. Mais: não consigo perceber como é que alguém pode sentir atração por um mamarracho metálico. Quão solitário tem alguém de estar para procurar intimidade junto de um bebedouro?

O pináculo da nojeira foi testemunhado pela minha pessoa numa cinzenta manhã outonal em que decidi abater banha com uma revigorante corrida. Sensivelmente a meio, a minha garganta estava mais seca que as piadas do Pedro Ribeiro, pelo que parei num bebedouro. Num ápice a minha sede desapareceu, ao testemunhar um meigo canídeo a lamber sofregamente o bocal do bebedouro, perante a passividade enervante do seu dono. Quando o cãozinho ficou saciado, foi a vez do seu zeloso dono lamber o bocal como se a sua vida dependesse disso. Foi comovente testemunhar esta ternurenta troca de saliva entre um cão e o seu dono.

Só bebi água quando cheguei a casa.