Mega Drive

Mega Drive

Janeiro 21, 2019 2 Por Francisco Ramalheira
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Quem foi miúdo nos anos 90 e não teve em casa uma Mega Drive ficou com o seu puzzle da infância incompleto, pois estava em falta uma das peças mais bonitas.

O lançamento

Lançada no Velho Continente a 30 de novembro de 1990 (dois anos após o lançamento japonês), esta preciosidade da Sega era a resposta da Sega ao sucesso da Nintendo com a sua NES, apresentando uma máquina poderosa e que era capaz de reproduzir fielmente grande parte dos grandes êxitos das máquinas Arcade. Sustentada por uma publicidade agressiva e uma distribuição eficaz, a Mega Drive entrou à bruta pelos lares europeus adentro, veiculando a mensagem de São Sonic por todos os fiéis devotos.

No nosso país, a consola foi um sucesso retumbante. Todos os putos tinham uma Mega Drive em casa e os que não tinham chagavam todos os dias o juízo aos pais para poderem ter uma. O raio da consola tinha uma panóplia de jogos absolutamente incrível, com títulos de todos os géneros e para todos os gostos, apresentando alguns dos maiores clássicos de todos os tempos.

Vendo a sua NES ser obliterada pela máquina da Sega, a Nintendo lançou a poderosa Super Nintendo, dando assim início à guerra de consolas mais sangrenta de que há memória.

A família do ouriço

O dia em que a recebi

Lembro-me perfeitamente do dia em que recebi a minha Mega Drive. Um amigo dos meus pais trabalhava numa empresa maravilhosa (que a esta distância penso ter sido a Ecofilmes), que distribuía produtos da Sega em Portugal. Foi num soalheiro dia de verão que visitei a habitação de tão ilustre individuo que tinha montada na sala uma sedutora caixinha preta, com um cartucho lá enfiado. Quando eu e o meu irmão suplicamos por experimentar tão fantástico artefacto, a consola foi ligada e um comando foi-me passado para as mãos. Nem queria acreditar no que via no ecrã. A consola era a Sega Mega Drive. O jogo era Sonic the Hedgehog.

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Foi a minha primeira paixão. Ainda hoje esta é das memorias relacionadas com videojogos que guardo com maior carinho. Outra pela qual nutro particular afeição é de quando, numa festa de anos um puto ia a correr e tropeçou no fio do comando, esbardalhando-se todo e levando com a consola na nuca. Naturalmente, só apreciei este momento porque a consola que caiu não era a minha.

Mas voltando ao dia idílico em que conheci a caixa de maravilhas da Sega, mal sabia eu que, ter jogado numa Mega Drive tinha sido apenas um pequeno aperitivo para o que aí vinha… Casualmente, o amigo dos meus pais pergunta-nos se gostávamos de ter uma. Respondemos imediatamente que sim! Ele vira costas. Quando volta, traz uma caixa de cartão debaixo do braço. O meu coração teve uma arritmia quando vi a imagem da caixa. Tive três ou quatro quando disse que aquela Mega Drive era para nós.

De seguida, veio o momento em que mais vontade tive, em toda a minha vida, de distribuir uns sopapos pelos meus queridos progenitores, que não queriam aceitar a prenda, dizendo “Não podemos aceitar uma coisa tão cara”. Bardamerda para a decência e decoro, como diria certamente o saudoso ex-presidente do Sporting. Já não me lembro bem da conversa, mas o desfecho foi o desejado: agarrado à caixa que nem uma lapa, foi com um sorriso de orelha a orelha que ao chegar a casa, e recorrendo à preciosa ajuda do meu pai, montei a consola, sintonizei a antena e mergulhei na Green Hill Zone.

As jogatanas com amigos

Mas o que guardo com mais carinho são as memorias das tardes a jogar com amigos e família, onde até os jogos para apenas um jogador serviam para intensas sessões multiplayer, recorrendo à mítica tática do “uma vida cada um”. Saudades daqueles momentos de tensão quando se chegava a um novo boss, ficando a sala em suspenso, enquanto o tipo com o comando na mão tentava descortinar o padrão de ataque do novo e imponente oponente. Lembro-me de um dia em que meia dúzia de miúdos estavam encafuados num quarto mínimo, extasiados por terem alcançado um novo nível no Rocket Knight Adventures, o clássico de culto da Konami, sendo o mutismo interrompido por um singelo flato que perfumou todo o habitáculo de um odor pestilento, parecendo que mil cadáveres em avançado estado de putrefação tinham emergido das trevas.

Nesta época, jogar online era certamente um conceito digno de ficção científica, pelo que a experiência competitiva e cooperativa estava limitada ao bom e velho multiplayer local. E podem chamar-me idoso à vontade, mas para mim o pináculo da diversão é mesmo junto de amigos, pois só a presença física torna a nobre arte de proferir insultos, distribuir galhardetes e gozar com a desgraça alheia numa experiência muito mais digna e enriquecedora. Gozar com um tipo que nunca vimos na vida através de um headset é cobardia. Gozar com um tipo que está mesmo à nossa frente fomenta amizades para a vida.

Que saudades dos torneios de Mega Bomberman ou de Micro Machines (que tinha no próprio cartucho um adaptador para 4 comandos!), recorrendo ao bom e velho papel e lápis para criar as equipas, no fim dos quais o grande vencedor tinha licença para humilhar a plebe que tinha acabado de derrotar.

Então e quando um nível mais difícil era ultrapassado ou um boss era derrotado? O autor de tamanha façanha ganhava automaticamente o estatuto de herói, sendo justamente ovacionado de pé, vendo as suas façanhas contadas e recontadas no recreio do dia seguinte.

VHS promocional que a Sega distribuiu com a revista Mega Force em 1994

Jogos Mega Drive = produto de luxo

E falando em recreio, a minha escola primária era uma autêntica feira de trocas de cartuchos. Na época, a compra de um jogo novo era um momento raro e único, sendo que tínhamos sempre em conta os jogos que os nossos amigos já tinham, para escolhermos um que ninguém tivesse, de forma a todos termos uma experiência nova. Quando um dos meus amigos comprava um jogo novo, todos festejávamos, pois tínhamos ali um novo cartucho para pedir emprestado. Era uma espécie de espírito comunista adaptado aos videojogos.

Embora este conceito possa parecer muito estranho junto dos mais novos, mas os valentes que cresceram nos anos 90 certamente recordam-se de que, nesta época, os videojogos eram um produto de luxo. Mas as consolas eram caras e os jogos eram caríssimos. Para além disso, não havia a concorrência gigantesca dos dias de hoje e fazer compras online era um conceito desconhecido para todos. Tínhamos, portanto, de nos contentar com os preços praticados pelas lojas. E esses preços eram altos. Por isso, não é de estranhar que tivéssemos direito a apenas dois ou três cartuchos novos por ano. Tínhamos de os escolher muito bem!

A melhor forma de um puto dos anos 90 perceber que as suas ações tinham consequências e de que tinha que se responsabilizar pelos seus atos era saber que só podia escolher um jogo Mega Drive como prenda de anos e que, se escolhesse mal, só poderia ter um novo uns quantos meses depois.

Inegavelmente, viver no tempo da Mega Drive deu-me, portanto, bagagem para a vida. A partir daí, decisões que teoricamente podem ser complicadas como “que curso escolher” ou “Emigro ou opto pelo desemprego na minha pátria amada” são muito mais fáceis de tomar. Nada se compara como aquele dia em que tive de escolher entre o Sonic & Knuckles e o Mickey Mania. Isso sim, fez-me suar.

Para quem quiser conhecer bem a história da consola, não posso deixar de recomendar vivamente o excelente video do Sega Cenas, que tem um canal com vídeos em português e com muita qualidade desta mítica companhia de videojogos:

Não é caça, é CACA!

Em jeito de conclusão, deixo-vos a pior piada de sempre, mas que, estranhamente, era considerada hilariante quando eu era um gaiato. Definitivamente, a minha escola tinha tipos muito estranhos. Correndo o sério risco de perder uns quantos subscritores, cá vai:

— A minha avó é cega.

— A sério? A minha é Nintendo.