Programas infantis dos anos 90

Programas infantis dos anos 90

Janeiro 20, 2019 5 Por Francisco Ramalheira
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Sabes que és um idoso carunchoso e pertencente a um século longínquo quando te recordas que na tua infância apenas podias ver os desenhos animados que passavam nos quatro principais canais. Embora o canal Panda tenha chegado a Portugal quando eu tinha apenas oito anos, a verdade é que em 1996 não eram assim tanto os lares que se podiam dar ao luxo de ter tv cabo, por isso, tinha de me contentar com o que a vida me dava.

E a verdade é que, o conteúdo destes quatro canais era mais do que suficiente não só para me grudar à televisão durante umas quantas horas, mas também para me fazer acordar de madrugada aos fins de semana, só para poder passar mais tempo a ver desenhos animados. Ah que criança tão estupida! Se pudesse voltar atrás no tempo daria uma joelhada na boca a mim mesmo por sacrificar preciosas horas de sono para poder ver bonecada, enquanto morfava malgas de cereais com chocolate. Contudo, esta ânsia de acordar cedo atingia o seu apogeu na época do natal (ler artigo correspondente), onde para além dos desenhos animados salivávamos com a quantidade insana de publicidade a jogos, legos e outros brinquedos que despertava o materialista acéfalo que habitava dentro de nós.

Neste artigo vou então definir o meu Top 3 de programas infantis, no qual não incluo a mítica série Rua Sésamo, não por não ter gostado (reza a lenda de que em bebé era enorme fã do Poupas e da Alexandra Lencastre), mas como mal me lembro, não seria justo coloca o programa neste seleto e prestigiadíssimo top.

3º Lugar – A Casa do Tio Carlos (TVI)

Abertura

No fim do top fica este programa infantil que estreou em 1993 e era apresentado por Carlos Alberto Moniz, um tipo de aspeto afável que era como se fosse o nosso tio da TV. O programa tinha vários desenhos animados, entre os quais Tom e Jerry, Heathcliff ou Bugs Bunny, tendo também uma componente que, já na época, estava a cair em desuso: cultura.

O bandalho do tio Carlos tinha o descaramento de incluir segmentos culturais e educativos que visavam ensinar alguma coisa à pequenada. Esta desfaçatez levou, obviamente, a que o programa fosse descontinuado em 1994.

Contudo, e correndo o risco de ter sido o único, eu fiquei bastante triste com o final desta minha companhia da hora do lanche. A música da abertura é de tal forma orelhuda que ecoa até hoje nos cantos mais recônditos da minha mente.

2º Lugar – Batatoon (TVI)

Dois tipos que ganham a vida a fazer de parvos. Que inveja.

Eu nunca fui fã de palhaços, pelo que a existência de um programa infantil em que os dois apresentadores são indivíduos que se inserem nesta categoria tinha tudo para ser alvo do meu mais profunda desprezo. Para mim, há três tipos de palhaços:

  1. Individuo cuja atividade profissional é ser, de facto, palhaço, besuntando a face com mais maquilhagem que uma tiazona septuagenária de Cascais, enquanto tenta entreter a pequenada com um estilo de humor que perdeu a piada há cinquenta anos.
  2. Individuo cujo modo de vida consiste em chular os seus conhecidos e o Estado o máximo que consegue, aproveitando todas as brechas e lacunas legais para trabalhar o mínimo possível. Por norma, este tipo de palhaço não tem qualquer tipo de respeito ou empatia pelo próximo, exibindo um egoísmo exacerbado, pelo que é comum assumir cargos de elevado estatuto social. É menos útil à sociedade que as úlceras, a gonorreia e os herpes.
  3. Individuo que tem como profissão ser árbitro de futebol e que tem o desplante de tomar decisões que não vão de encontro às leis do jogo e que prejudicam o Sport Lisboa e Benfica. Esta categoria de “palhaço” ganhou maiores contornos com a introdução do VAR.

Como destes todos, o meu palhaço favorito ainda é o primeiro, acabei por dar uma chance a Batatoon, embora dispensasse bem a “palhaçada” que o palhaço fazia sempre que enviava um presente para os telespetadores ou quando dizia “comando na mão e carrega no botão!”.

Mas então se estou longe de ser um fã desta arte circense, porque raio então é que eu coloquei este programa em segundo lugar neste tão prestigiado top? Porque, apesar de tudo, Batatoon tinhas coisas que eu adorava: primeiro tinha dois dos personagens com melhor nome de sempre: um sapo de peluche que era o “Sapo Xixi” (e a minha afeição por humor escatológico só se podia regozijar com isto) e um microfone chamado “Micro-gaitas”. Dizem as más línguas que este objeto foi apelidado desta forma para fazer referência à dimensão peniana do Batatinha e do Companhia. Que piada tão fácil.

Depois, naquilo que realmente interessava, o Batatoon era um programa fortíssimo, apresentando uma excelente panóplia de desenhos animados, como o demente Cow & Chicken, o clássico Dartacão, Digimon, Zorro, Sonic Underground e ainda um dos meus desenhos animados (ou anime, para não ferir suscetibilidades) favoritos de todos os tempos: Rurouni Kenshin. Ou, Samurai X, como ficou conhecido aqui no burgo.

Este último passava-se durante a Era Meiji, contando as aventuras de Kenshin Himura um poderoso espadachim que prometera nunca mais matar. A série apresentava algum sangue e violência, contrastando fortemente com todo o ambiente fofinho e infantil do programa. Cheira-me que a malta do Batatoon apenas olhou para as audiências e não se preocuparam minimamente em aferir se o conteúdo estava de acordo com o programa. Um bocadinho como o Goucha fez ao convidar o Mário Machado. (vídeo youtube)

Mas o principal legado que este programa deixou à humanidade foi uma música de parabéns (irritante comó car****) que vingou de tal forma no imaginário coletivo que, ainda hoje, há papalvos (nos quais me incluo) que a utilizam para parabenizar os seus entes queridos.

E também fui assistir ao Batatoon. Sou um tipo calmo e pacifista, mas se houve altura em que me apeteceu pontapear os tintins de um palhaço foi naquele dia. Eu sei que o Batatinha apenas estava a fazer o seu trabalho e que o Companhia apenas estava a ganhar a vida para poder pagar a prestação do seu T0 na Damaia, mas o sentido de humor do duo circense era tão apurado como o de um barrote de contraplacado. Caramba, antes ver em loop os episódios todos dos Batanetes.

Confesso que soltei uma gargalhadinha maldosa quando surgiram aquelas notícias de que o Batatinha e o Companhia andaram à batatada e que, a partir daí, o Companhia seguiu uma carreira a solo. A ironia desta frase ainda hoje me arrebata um sorriso.

1º Lugar – Buéréré (SIC)

Apresentado por uma Ana Malhoa que ainda não se banhava diariamente numa terrina repleta de azeite, o Buéréré estreou em 1994, replicando o formato de programas infantis que havia no Brasil. Assim, os petizes para além dos desenhos animados podiam contar com muita música, coreografias ou peluches gigantes chamados Boiréré e Vacaréré (porra, que nomes tão épicos). O programa era de tal forma colorido e psicadélico que quem tinha epilepsia não o podia ver, sob pena de encher de baba a sua taça de cereais.

Este programa infantil teve tanto sucesso que rapidamente ganhou uma versão para os fins-de-semana (o Super Buéréré), conseguindo assim estar na grelha da SIC todos os dias da semana, tendo mais espaço de antena que “clássicos do humor nacional” como “Os Malucos do Riso” ou as séries do Camilo. Aliás, o programa ganhou “apenas” o título de “o mais visto de sempre na televisão portuguesa”, tendo um share médio de 92% entre 1994 e 1998. Agora imaginem se tivesse uma apresentadora!

Mas muito mais importante do que estas merdinhas de audiências, o que um puto queria era desenhos animados! E o Buéréré tinha o Dragon Ball. Não precisava de mais nada.

Algures na minha estadia na primária, a minha turma foi gravar uns episódios do Buéréré. Para além da excitação natural por estar pela primeira vez num estúdio de televisão, esta visita teve um momento muito mau e outro absolutamente espetacular. O mau é que não podemos ver desenhos animados: sempre que a senhora Malhoa exclamava entusiasticamente que íamos ver o “Inspetor Gadget” um desmancha-prazeres qualquer gritava “CORTA!” e ninguém via nada.

Mas esta deceção foi claramente compensada quando um amigo meu, que era bastante grande e desengonçado, abalroou sem querer a senhora Malhoa, interrompendo assim um épico playback do “Sabes que começou no A”

E vocês? Que programas infantis vos causaram um descolamento de retina?