“Sou a tua menina”, o novo poema de Maria Leal

“Sou a tua menina”, o novo poema de Maria Leal

Janeiro 1, 2019 0 Por Francisco Ramalheira
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Para começar o novo ano em grande, vou aceder a vários pedidos (mais concretamente dois) e vou analisar a mais recente maravilha da cultura portuguesa. Foi com enorme agrado e honra desmedida que me debrucei sobre a nova obra de arte da poetisa Maria Leal, a mais proeminente figura do nacional cançonetismo e cujo lugar no Panteão Nacional já ninguém lhe pode tirar.

Acabei de escutar este hino festivo e apenas posso dizer que, de repente, ganhei novo apreço pelo saudoso artista Zé Cabra. Vou começar pelo fim e dar, desde já, o meu veredicto sobre isto:

Estava à espera de melhor. Quando nos habituam à excelência, depois quando vem algo menos bom é normal sentirmos as expectativas defraudadas.

“Sou a tua menina” fez-me ter vontade de perfurar os meus próprios tímpanos com a caneta bic que tinha na mão, sendo que mal a Maria Leal abriu a goela para “cantar”, a minha cadela fugiu para a cozinha, enquanto uivava de dor. Não é qualquer “música” que consegue este feito.

E pronto! A avaliação da vertente musical desta canção está feita. Mas, felizmente, o excelente videoclipe dá-nos uma panóplia de outras vertentes que urge analisar com minúcia.

O penteado

Comecemos pelo penteado da “cantora”. O Cláudio Ramos que habita em mim (porra… que raio de frase) não poderia deixar passar incólume aquela amalgama de serpentes que passeiam pelo couro cabeludo da nossa querida Maria. É tipo aquela panca acéfala que algumas adolescentes têm quando fazem tranças ou rastas, que lhes dá um aspeto de traficante de estupefacientes. À nossa Maria essa panca veio aos 50 anos. Antes tarde que nu(n)ca.


O título da bonita canção

Continuemos esta análise pelo título da “canção”: “Sou a tua menina”. A primeira vez que o ouvi senti um arrepio. Não daqueles bons, que nos faz ficar com pele de galinha, mas daqueles horripilantes que foi o que eu senti ao pensar que a “cantora” seria a “minha menina”. Ninguém merece semelhante trambolho. Para além de que tenho umas humildes poupanças no banco que gostaria de manter. Ela ainda as gastava a comprar lojas em Elvas ou, pior, a fazer penteados daqueles.

Ainda no título, gostaria de apontar uma palavra usada por engano. Essa palavra é “menina”. Maria Leal já não é uma menina. Já tem idade para ser avó, pelo que, a partir de agora, vou tratá-la sempre por “Dona”. Respeitinho é muito bonito e a Dona Maria merece. Feito este esclarecimento, evitamos também que os futuros maridos da Dona Maria caiam no engodo de pensarem que estão a contrair matrimonio com uma menina. Já houve quem caísse nesta esparrela, por isso nunca se sabe.

O soberbo videoclip

Agora, por último, o videoclip em si. Do ponto de vista da comicidade está aqui um petisco para todos os apreciadores da arte da gargalhada degustarem prazerosamente. Logo a abrir, somos brindados com uma voz que anuncia “I would like to introduce…Miss Mary Loyal!” e percebemos, imediatamente, que estamos diante de algo muito, mas mesmo muito, especial. Como se não bastasse, ao longo do poema somos bafejados com mais palavras em inglês proferidas com sotaque do Jorge Jesus e que, amiúde, aparecem descontextualizados no meio das frases. A Dona Mary Loyal está a tentar internacionalizar-se e isso só lhe fica well. Se bem que por words em inglês isoladas numa sentence dá sempre um ar muita azeitolas. Mas isso sou I. Tastes não se discutem.

E é justo que a Dona Mary Loyal chegue a novos mercados. Não tem de ser os portugueses a levar sozinhos com este flagelo. A dor, quando partilhada, é muito mais fácil de suportar.

A sublime coreografia

Passamos agora para outro ponto que é fulcral analisar: a dança. Já viram uma galinha a ter um ataque de epilepsia? Não? Visualizem o vídeo com atenção que contemplam logo meia dúzia.

  Agora mais a sério, eu acho que é de uma crueldade atroz obrigarem a Dona Loyal a dançar. A senhora tem notórios problemas de locomoção e de coordenação, pelo que é feio não só porem aquelas perninhas de gafanhoto a balouçarem-se freneticamente, tentando, a todo o custo, fazer aquilo a que os comuns mortais apelidam de dançar, como, ainda por cima a obrigarem a praticar a arte da dança com sensualidade.

Se calhar é o meu conceito de sensualidade que é muito seletivo, mas, para mim, a dança sensual da Dona Mary faz-me lembrar um louva-a-deus a fazer um ritual de acasalamento. O pináculo da sensualidade, para mim, atinge-se quando a Dona Mary Loyal se coloca na posição conhecida pelos eruditos como a de “arrear o calhau” (por volta do minuto 3). Tudo isto, naturalmente, regado com litros de bom azeite.

Nesta questão da falta de jeito para dançar devo dizer que sou das últimas pessoas que podem criticar a Dona Mary. Afinal de contas, quando a música começa a bombar o meu pé direito transforma-se em esquerdo e ganho a coordenação motora do Forrest Gump. Por isso, tenho o bom senso e a decência de ir para o meu canto e tentar permanecer o mais invisível possível. Não vou bambolear o meu corpo tremendamente sensual para um videoclip. É fundamental termos a noção dos nossos limites e a Dona Loyal, claramente, não sabe quais são os seus. Mas também não passa de uma jovem imberbe de 50 anos. Certamente que quando amadurecer lhe vão passar estas tolices de adolescente.

Em jeito de conclusão, quero terminar dizendo que depois de ouvir esta bonita melodia não posso deixar de ficar lixado com duas pessoas:

  1. Jaimão — é ele o responsável pela letra e música desta obra. Sim, o mestre responsável por clássicos intemporais que marcaram a minha adolescência como “o Calimero foi à cona à Abelha Maia”, “Uma canzana junto à praia” ou “Colhão colhão” produziu isto. Os fãs acérrimos de “Colhão colhão” (nos quais, humildemente, me incluo) não mereciam esta desfaçatez. Por este andar, qualquer dia temos o Rui Veloso a produzir as músicas dos D.A.M.A.
  2. O ex-marido da Dona Maria Leal — porra o homem deu-lhe tudo… Foi delapidado até ao tutano e não foi capaz de oferecer à sua amada esposa umas aulinhas de dança e da canto? Duvido que melhorasse muito — até porque o azeite não sai com aulas —, mas ao menos o capital era melhor investido do que em toda aquela roupa da loja dos chineses que a Dona Mary Loyal adquiriu.