O Zé vai a uma casa de banho pública

O Zé vai a uma casa de banho pública

Dezembro 30, 2018 0 Por Francisco Ramalheira
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Estamos na época do Natal. Mais precisamente no dia 23 de dezembro. E o Zé, como qualquer português digno desse epíteto, deixou as compras para a última, pelo que, como penitência, terá de se sujeitar à maior tortura que o homem dos tempos modernos pode ser submetido: ir a um centro comercial nas vésperas de Natal.

Nem o maior facínora da História da Humanidade mereceria tamanho mal. O Zé já prometeu a si mesmo que para o ano não vai cometer este erro e vai fazer todas as compras atempadamente! Isso não vai acontecer.

Só há uma coisa pior que ir a um centro comercial nas vésperas de Natal. É ir a um centro comercial nas vésperas de Natal e ser alvo de uma vontade fulminante de fazer cocó. O Zé foi o feliz contemplado desta maleita. Injuriando ferozmente a feijoada que papou ao almoço, deixou a esposa numa das muitas filas do centro comercial e correu o mais depressa que pode até ao local onde poderia voltar a ser feliz. E para verem a urgência da questão, o nosso amigo Zé é daquelas pessoas que abomina fazer o dito número dois num local que não seja a sua acolhedora habitação. O conceito de “casa de banho pública” era suficiente para fazer o Zé soltar um esgar de nojo. Mas o desespero era tão grande que o nosso pobre amigo já se sentia quase a entrar em trabalho de parto.

As águas, pelo menos, já tinham arrebentado.

Depois de quase abalroar meia dúzia de idosos e de tropeçar noutra dúzia de criancinhas, o Zé – que suava que nem um suíno, devido ao esforço estratosférico que tinha de fazer para manter dentro de si tudo o que tinha de deitar cá para fora – chegou finalmente ao local de culto, no qual iria poder libertar o demónio que lhe invadira as entranhas. Ficou tão comovido ao ver a bonita e alva porcelana que, para ele, era como se fosse banhada a ouro.

Para atrasar ainda mais o processo de defecar, o Zé é um crente devoto na religião que professa a fé de que, se meteres uma rodela de papel higiénico no tampo da sanita, as centenas de germes que lá habitam não passarão para o teu próprio traseiro.

As crenças devem ser respeitadas e os crentes deste movimento religioso são do mais fanático que há, querendo converter à força todos os infiéis que optam por defecar em elevação (não sentando, de todo, o rabo na fria porcelana) ou os infiéis badalhocos, que são os que se sentam em qualquer lado, esponjando as suas nádegas em todo o qualquer assento sanitário, adotando cada sanita como se fosse sua.

Que categoria!

Assim, com uma paciência de santo e já a suar em bica devido ao esforço hercúleo que tinha de fazer para impedir que o dito cocó viesse à janela conhecer o mundo e dizer olá às pessoas, o Zé forrou a argola da sanita de forma perfeita, não deixando um milímetro de fora. Quando se sentiu plenamente satisfeito com a sua obra de arte, desapertou as calças, deixou-se cair no confortável assento e soltou as amarras.

Pareciam as cascatas do Niágara.

O Zé só conseguia sorrir. O tormento pelo qual passou estava finalmente a chegar ao fim. Tinha conseguido sobreviver ao seu Vietname. Em breve iria sair da casa de banho e iria voltar para casa.

Tinha sobrevivido mais um dia.

De sorriso nos lábios, esticou a mão direita, na ânsia de alcançar o tão valioso objeto que lhe permitiria limpar o seu translucido rabo e sair para fora daquele inferno de forte odor (odor, para o qual ele tinha contribuído decisivamente).

No entanto, quando os seus dedos sedentos alcançaram a argolinha de metal na qual repousa o cálice sagrado de todos aqueles que acabam de defecar, o Zé ficou lívido. Tinha acabado de cometer o pecado capital de quem expele fezes numa casa de banho pública: dar início à sua atividade laboral sem primeiro verificar que tem como limpar aquilo que tem de ser feito.

Não havia papel na casa de banho.

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E agora? Como é que o Zé se iria desenvencilhar de tamanha alhada? Sabia que tinha de agir rapidamente, antes que o cocó se solidificasse nas suas nádegas, formando uma pasta cremosa e que depois só sairia à base de potentes jatos de água. Era uma corrida contra o tempo. Não havia um segundo a perder.

Em pânico, Zé chamou por alguém. Chamou pela mãe. Pela esposa. Chamou por Jesus Cristo, nosso Senhor.

Ninguém lhe acudia.

Naquele momento de dor e aflição, daria de bom grado um testículo em troca de um rolo de papel higiénico perfumado e de folha dupla.

Quando menos esperava, a porta que o separava do mundo abriu-se de rompante. À sua frente estava uma criança, de sorriso terno e angelical. O pequenito não teria mais de três anitos. Dos seus finos lábios, brotou a mítica frase: “Ó papá, está aqui um senhor a cagar e não tem papel higiénico”.

O Zé também olvidou a segunda regra de ouro de quem faz cocó numa casa de banho pública: trancar sempre a porta.

E com esta bonita moral, terminamos esta história comovent(r)e.