Jogos encantadores da infância

Jogos encantadores da infância

Dezembro 28, 2018 0 Por Francisco Ramalheira
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A nostalgia é uma coisa tramada. 

Poucos são aqueles que não ficam com uma lagrimita marota no canto do olho ao recordarem os bons tempos que passaram na infância. Hoje, para mim, foi um desses dias. Mas a lagrimita marota não adveio do saudosismo ou por suspirar por um tempo mais simples que já não volta mais. As lágrimas foram por me relembrar da dor física que muitas das encantadoras brincadeiras que eu e os trogloditas bárbaros a quem apelidava de amigos brincávamos ao longo da nossa terna e doce infância.

Corredor da morte 

Este jogo encantador e com um nome tão fofinho tinha regras muito simples: um conjunto de manfios formavam um corredor, dispondo-se em duas filas, no meio das quais um pobre coitado teria de passar. Enquanto esse mesmo pobre coitado calcorreava o “corredor” era prendado com todo um reportório de carolos, calduços, belinhas e todo o tipo de sinónimos para pancadas na zona capilar e no cachaço.

Quando o pobre coitado chegava ao fim do corredor riamos todos muito.

Depois o pobre coitado passava a ter a honra de integrar a estrutura do corredor e novo pobre coitado era nomeado para passar pelo seu interior. E assim sucessivamente até todos serem bafejados pelos calduços dos amigos. Era um jogo ideal para o Inverno: saiamos de lá sempre quentinhos. 

Por vezes, o corredor da morte era usado apenas para uma pessoa, para a castigar por alguma falha (grave) que tenha cometido, por exemplo: “Malta, o Tomané falhou um golo de baliza aberta no torneio de interturmas de futebol! Por causa dele perdemos contra o 6ºB!”.

E lá ia o Tomané dar uma voltinha pelo corredor, expiando assim os seus pecados escolares. 

Assobia 

Se fizéssemos um top de brincadeiras parvas e sem qualquer tipo de conteúdo, esta ficaria, certamente, tremendamente bem classificada.

As regras eram muito simples: toda a criança portadora de um pénis tem, à partida, testículos. Esta enternecedora brincadeira consistia em aproximarmo-nos de um dos nossos compi(n)chas, apertarmos-lhes os ditos cujos (com força, claro), enquanto exclamávamos, alegremente:

– Assobia!

E só largávamos quando o rapaz assobiava. Mas que brincadeira tão máscula e viril!

Pessoalmente nunca fui grande fã desta bonita iniciativa. Meter a minha mão no mesmo local onde se encontra o escroto de outrem é um conceito que não me fascina particularmente. E ser o recetáculo de tão bonita prática também não me agradava, pelo que foi este jogo que me fez querer aprender rapidamente a assobiar.

E ninguém me tira da cabeça que personalidades como o James Blunt ou o Nuno Guerreiro não tem aquela voz fininha de propósito. Simplesmente foi um jogo do assobia que foi longe de mais.

Campo de extermínio  

Esta denominação não deixava grande margem para dúvidas relativamente ao que iria acontecer aos participantes deste miminho escolar.

O funcionamento era muito simples: havia uma parede. E havia uma bola. Depois havia um sacrista que ia para a parede, enquanto os restantes vândalos chutavam a bola, com o máximo de força que conseguiam, com um único e singelo objetivo: acertar em cheio no tal sacrista que estava na parede. Depois a pontuação variava de acordo com a parte do corpo onde o desgraçado levava a bolada. Assim de memória, lembro-me que a cabeça e a zona peniana eram as mais valiosas.

E como é que se saía do campo de extermínio?

Muito simples: tinha de agarrar a bola. Ou seja, este era um jogo que não podia ser dada misericórdia por parte dos participantes! Porque se tens pena do tipo que está a levar boladas em barda e chutas devagar… Ele vai agarrar a bola e troca de lugar contigo! Este jogo é, no fundo, uma metáfora muito triste de alguns círculos da vida adulta: é cada um por si. Não há espaço para a paz e amor.

Foram intervalos inteiros a jogar a esta bodega. Recordo com saudade uma bolada que um amigo meu levou na tola, que o fez dar uma cambalhota à retaguarda e embater violentamente com o traseiro na parede. Ainda hoje não sei como é que aquilo foi possível.

Agora fiquei com saudades de jogar a isto… Vou criar um grupo no Whatsapp e ver se o pessoal alinha.

Filhos 

Se o Campo de Extermínio mostra logo aos jogadores ao que vem, este enternecedor clássico já nem por isso. Aliás, ainda hoje não sei porque raio se apelidou de “Filhos” o jogo bárbaro que abaixo vou descrever.

Para jogar a esta maravilha das sociedades civilizadas era apenas necessário uma bola. Não era preciso sequer formar equipas. Os “atletas” jogavam todos contra todos. Assim, criava-se uma anarquia fascinante em que o nosso objetivo era chutar a bola… contra os outros jogadores. Sempre que acertávamos em cheio com uma bolada em alguém “fazíamos-lhe um filho” (apenas a estes anos de distância é que me apercebo o quão esquizofrenicamente estranho era isto).

O objetivo do jogo era, portanto, apenas um: acertar com pertardões de força no lombo dos nossos queridos coleguinhas. Quanto bolada vi (e senti) ser acertada na sempre sensível zona testicular… Olha, se calhar foi isso que deu o nome ao jogo, pois quem o jogava muito, no futuro, pode ter ficado com problemas em “fazer filhos”.

Fodinha à galo 

Esta brincadeira de belíssima nomenclatura (um dos meus objetivos de vida é dar um forte abraço à pessoa que deu este lindo nome a este igualmente lindo jogo) é um das coisas mais incrivelmente estúpidas que se faziam na minha saudosa escola.

Estão a ver aquele puxinho de cabelo que faz de fronteira entre o fim do cabelo e o início do pescoço? Sim? Pois bem, o objetivo era arranjar uma vítima e puxar esses cabelos com toda a força, enquanto gritávamos jovialmente “Fodinha à galo! Fodinha à galo!”. Tão giro.

Se o individuo que recebia a dita “fodinha” gritasse, perdia. E era olhado como um mariquinhas. Se aguentasse estoicamente a dor, ganhava. E era visto como um herói em todo o pátio escolar, cantando-se hinos e compondo-se odes em sua honra.

Chamadas anónimas 

Esta brincadeira milenar é agora impossível de realizar. As novas e malditas tecnologias permitem que o nosso interlocutor veja qual é o número que lhe está a ligar, pelo que tiradas épicas como “Está lá, estou a falar com o senhor Coelho? Não? Então desculpe, enganei-me na toca!” vão desaparecer para sempre do nosso imaginário coletivo. E é pena. Agora os professores que são maus para os seus alunos já não recebem chamadas anónimas a meio de uma noite das férias de Verão. Não está certo.

Aaaah saudades dos telefones fixos! Agora só servem para ligarmos para o nosso telemóvel quando o perdemos.

Futebol com calhaus 

Este é um jogo tremendamente simples: para um puto que fazia questão de jogar à bola em todo e qualquer intervalo, a falta desse objeto teoricamente fundamental para o jogo, denominado por bola, não podia, de maneira alguma, constituir impeditivo para uma bela peladinha.

Assim, quando já não havia bola (e isso normalmente acontecia quando todas já tinham ido parar ao quintal do vizinho), a nossa tarefa era procurar o calhau mais arredondado possível e, com ele, dar início ao espetáculo. Este ganhava contornos muito mais reais quando tinhas a sorte de, na tua turma, teres um individuo suficientemente chanfrado para, não só querer ir à baliza (relembro que a bola era um calhau), mas também para se atirar para o chão para a defender, como se de um verdadeiro profissional se tratasse.

Este que se assina, era um menino muito bem-comportado (sinónimo simpático para “tótó”), pelo que apenas fui uma vez chamado ao Gabinete do Diretor da escola (esse lugar de lendas, onde as crianças eram engolidas pelas chamas do Inferno): quando num disputado jogo de futebol com calhaus acertei com o “esférico” em cheio na testa do guarda-redes, pintalgando a grande área de um vermelho vivo que deu um tom mais pitoresco ao campo de betão da minha escola.

O jogo do poste 

Para último, deixo aquela modalidade que é a mais estúpida e idiota de todas. Nunca gostei disto. Talvez por medo. Medo de um dia ser eu o feliz contemplado em ver um poste embater com toda a força na minha jovem zona escrotal. Para além de que temia que o meu fiel companheiro nunca mais fosse o mesmo.

Então no que consistia esta adorável prática escolar? Basicamente, quatro gorilas pegavam num mártir (normalmente, um mártir que fazia anos naquele dia; era uma espécie de prenda), pegavam nele, forçavam-no a abrir as pernas e corriam a toda a velocidade contra o poste mais próximo, com o objetivo de que o mártir embatesse com os seus imberbes órgãos reprodutores com toda a força contra o demónio de ferro.

Era até fazer ketchup. 

Se Portugal tem uma baixíssima taxa de natalidade, a este jogo o deve (a este jogo e a outras coisas, tipo o desemprego, o emprego precário para os jovens, a crise sistémica do nosso país e essas coisas menos relevantes). Quantos jovens terão ficado monotesticulares após participarem neste jogo?

Antes de o simpático leitor ou leitora achar que eu frequentava escolas da era das Cruzadas ou dos Autos de Fé, sinto-me na obrigação de acrescentar o seguinte: ainda foram bastantes as vezes que vi alguém a “ir ao poste”. E ainda foram algumas aquelas que eu e outros rapazes, um bocadinho menos trogloditas do que os restantes, impedimos algumas correrias rumo ao poste mais próximo. Mas muito poucas foram as vezes em que, efetivamente, acabava por haver interação poste/testículo. Por norma, os gorilas paravam no último instante e depois todos se riam muito. E os que acabaram por ir ao poste não se magoavam realmente, pois os gorilas tinham alguma massa encefálica e não deixavam que o embate fosse violento. 

Exceto aquela vez em que…

Conclusão

Depois de escrever estas linhas, há apenas uma conclusão a retirar: nós eramos, de facto, umas bestas. Mas umas bestas bem felizes e com várias histórias para contar.

Já só temos é um testículo.