O Zé vai andar de comboio em dia de greve

O Zé vai andar de comboio em dia de greve

Dezembro 27, 2018 1 Por Francisco Ramalheira
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Um barulho longínquo incomodava o sono reparador de Zé, o empregado de escritório. 

Soltando, entredentes, um valente impropério enquanto libertava a primeira flatulência do dia, Zé esticou o indicador na direção do objeto infame que repousava na sua mesa de cabeceira, vulgarmente conhecido como “despertador”.

Ao olhar para o mostrador das horas, grunhiu rudemente. E depois teve vontade de chorar. O mostrador luminoso indicava que eram exatamente 5h31 da manhã. Uma hora que nem o mais repugnante dos facínoras mereceria acordar. Felizmente, esta não é o horário normal de despertar para o Zé, o empregado de escritório. Mas hoje é um dia especial e, por isso, para seu rejubilo, teve de madrugar ainda mais do que era costume. Hoje é dia de greve dos transportes!

Vestindo-se como a mesma motivação de quem se aproxima do cadafalso, Zé foi buscar o seu velho fato, deu um desajeitado nó na gravata e perguntou a Deus porque raio é que tinha de ir trabalhar.

“Porque és pobre” – respondeu-lhe o Messias, na sua cabeça.

Resignado, tentou evitar desejar que um infortúnio particularmente doloroso sucedesse aos indivíduos que iam fazer nova greve – afinal de contas todos os trabalhadores sérios e competentes têm o direito de fazer greve -. Inspirou fundo e pensou “vá lá Zé. Também é só a segunda greve que eles fazem este mês”. Depois lembrou-se de que era o dia 3 de novembro. E uma lágrima escorreu-lhe pelo rosto. Até porque a greve não fora devidamente noticiada. E tinha comprado o passe no dia anterior.

O Zé saiu do prédio. Estava um dia lindo, com o céu muito negro e aquela chuva miudinha e irritante que encharcou logo o seu cocuruto já desprovido de cabelo. O Zé ainda pensou em voltar para casa para apanhar um guarda-chuva, mas os serviços mínimos decretados indicavam que se não apanhasse o comboio das 6h, apenas haveria outro uma hora depois. Ah a maravilha dos serviços mínimos!

Chegado à estação, o Zé entrou numa plataforma apinhada de gente. Inspirando fundo, sorveu sofregamente o delicado aroma a cão molhado que emanava pela massa encharcada de pobres utilizadores de transportes públicos, que se amontoavam numa plataforma que, claramente, não tinha condições para albergar tamanha densidade populacional.

O amontoar de gente molhada, ensonada e maldisposta leva, invariavelmente, a que vários transeuntes tivessem necessidade de extravasar aquilo que sentiam, proferindo a plenos pulmões impropérios contra tudo e contra todos. A agitação sobre de tom quando, à hora que era suposto aparecer o comboio dos serviços mínimos aparece apenas um gato vadio, que tamborilando a sua cauda felpuda se bamboleia pela linha de comboio, gozando descaradamente com os humanos que se encavalitavam uns nos outros.

Passaram cinco minutos.

Passaram dez.

Passou meia hora.

Nada.

Ainda bem que acordei mais cedo, pensava o Zé, enquanto olhava para o seu relógio.

Passou mais meia hora. E foi então que, no horizonte, aparece a silhueta de um comboio. Uma centelha de esperança nasce dos olhos do Zé. Era agora! Era agora que iria conseguir apanhar o comboio para, finalmente, poder ir trabalhar. Zé rejubilava de alegria. Todo o seu ser fora inundado com um sentimento de jubilo de proporções de tal forma épicas que teve de extravasar os seus sentimentos osculando violentamente a idosa do lado, que lhe deu uma bengalada na testa. Fazendo um esforço hercúleo, reprimiu uma lágrima de comoção. Outros a seu lado não conseguiram tamanho feito, chorando copiosamente na direção do seu adorado meio de transporte. A seu lado, um velhinho chorava dizendo que tinha quatro filhos e que ficou mais feliz com a chegada do comboio do que com o nascimento de qualquer um deles. O Zé percebia-o perfeitamente.

Mas o sorriso do Zé não durou muito tempo. Quando o comboio parou na paragem, notou imediatamente que não possuía o número de carruagens normal. Três miseras unidades interligadas entre si estavam atrás da cabina do condutor e, se com um comboio normal já seria praticamente impossível fazer entrar toda a gente que estava na plataforma, com esta amostra de comboio ainda seria pior.

E foi então que as portas do comboio se abriram. E o Zé constatou que, no interior daquele inferno de ferro e aço, não havia espaço para entrar nem mais um átomo. A moldura humana que estava no interior parecia uma peça só, tal era a junção harmoniosa de pessoas incrustadas umas nas outras. É impossível entrar aqui, pensou o Zé, revelando tato e bom senso. Mas muitas das almas que povoavam a malfadada plataforma não revelaram esse mesmo tato e bom senso, achando que era possível entrarem para o interior daquela lata de sardinhas em formato de transporte público.

Nova vaga de poesia surgiu no ar. Enquanto brutamontes empurravam para conseguirem colocar um pé no interior do comboio, palavrões imensamente cabeludos davam cor e alegria aquele inicio de manhã frio e cinzento. A muito custo, as portas do comboio voltaram as fechar e Zé rezou fervorosamente para que o comboio seguinte estivesse para aparecer.

A oração não serviu para nada. O Messias devia ter voltado para a cama.

Após mais uma hora de alegre camaradagem na paragem, apareceu novo comboio. Quando as portas se abriram, o Zé rapidamente constatou que, no que a espaço vital dizia respeito, a situação não era muito diferente do comboio anterior. Mas, desta vez, o Zé mandou o tato e o bom senso às malvas, atirando-se para cima da multidão húmida e suada, decidido a lutar pela sua molécula de oxigénio no interior daquela carroça. Após atropelar três velhas, puxar a saia a uma senhora e pisar um individuo que estava de muletas, o Zé conseguiu entrar. Suspirando de alívio, aninhou-se no dorso no senhor obeso que estava junto a si, preparando-se para a agradável viagem de vinte minutos que tinha pela frente.

Em cada estação que o comboio parava, a proporção de criaturas que entrava era claramente superior à que saia, originando a que, rapidamente, o corpo flácido do Zé se fundisse com o de toda a gente à sua volta, numa amalgama de gente que já não era possível diferenciar. Olhando novamente para o relógio, o Zé suspirou. Só faltavam três minutos para chegar ao seu destino. O Zé sorriu.

Três segundos. Três míseros e insignificantes segundos. Foi este o tempo que durou o sorriso terno e honesto do pobre Zé. Quando nada o fazia prever, o som estridente do comboio a travar abruptamente nas idosas linhas dos carris fez pele de galinha a todos os desgraçados que tentavam, apenas, deslocarem-se para o seu local de trabalho. Após a travagem, o comboio ficou completamente imóvel no meio de um troço. Aos poucos, o burburinho entre os encarcerados começou a subir de tom, pois ou minutos passavam, o comboio não arrancava e o calor no interior daquela máquina do demo era de tal forma abrasador que os braços do Zé já estavam grudados a quem estava ao seu redor, como se de gémeos siameses se tratassem.

Ao longe, Zé ouvia uma senhora com timbre de papagaio a cacarejar sobre a pressa que tinha para chegar ao emprego que se ouviu o som característico dos altifalantes do comboio. Instantaneamente, a algazarra cessou e todos, sem exceção, aguardavam ansiosamente pelas palavras do senhor maquinista, ansiando para que estas trouxessem a boa nova da continuação da marcha.

“Senhores passageiros, lamentamos informar que devido a uma avaria na linha este comboio ficará imobilizado por tempo indeterminado. Lamentamos o incomodo que esta situação possa causar”.

Ora essa! Mas qual incomodo…, pensou o Zé. Está-se tão bem aqui…

A comunicação não foi bem aceite pelos passageiros que, em coro, entoavam finados cânticos com palavras de ordem, a maioria relativos à atividade profissional livre de impostos que a senhora progenitora do maquinista, alegadamente, praticava.

Emocionado com a força das palavras dos cânticos, Zé imita os gestos da maioria dos seus irmãos passageiros, colocando os braços em volta dos seus companheiros de armas, participando ativamente na entoação dos belos cantares.

Foi o espírito de comunhão entre todos aqueles companheiros de celas que lhes permitiu sobreviver aquela privação. Os que choravam eram confortados pelos mais fortes de espírito. No canto oeste da carruagem já havia quem tatuasse no braço direito “Amor de Mãe, comboio da linha de Cascais 2018”.

Mas o clima de alegre camaradagem não poderia durar para sempre. De repente, Zé deixa de ouvir a senhora com voz de papagaio.

– Está aqui uma senhora a desmaiar! – guinchou um individuo de cabelo verde e óculos sem lentes, enquanto amparava com as costas a camarada de carruagem que, devido ao calor extremo, desfalecia.

Muitos foram os que tentaram chamar o INEM, mas poucos foram o que tinham o espaço suficiente para colocarem as mãos ao bolso para fazerem a chamada. Invocada a equipa de emergência, foi com urros de alegria e com lágrimas nos seus olhos trémulos que o Zé viu uma ambulância chegar até eles, acordando o maquinista que, entretanto, passara pelas brasas, obrigando-o a abrir as portas do Inferno.

Finalmente no exterior, Zé ajoelha-se, beija a terra e chora. A sua demanda tinha chegado ao fim. Poderia ir trabalhar! Dar o seu singelo contributo à sua amada entidade patronal, que no dia anterior tinha recusado o seu pedido de ficar a trabalhar em casa, para evitar o caos inerente que uma greve acarreta sempre.

Parece que “quem trabalha em casa não é produtivo”.

Ainda a arfar devido à dificuldade em normalizar a respiração, Zé despediu-se dos seus camaradas – fazendo um esforço sobre-humano para separar o seu corpo dos demais que vierem encostados a si durante a paradisíaca viagem – e dirigiu-se até à paragem de autocarros.

Foi com uma gigantesca sensação de déjà-vu que o Zé viu chegar um autocarro completamente lotado. Sem vontade de repetir a experiência de fundir o seu corpanzil ao dos restantes convivas, olhou para o céu. Estava farrusco, mas não chovia. Como tal, o Zé suspirou fundo e resolveu pôr-se a caminho a pé até ao emprego. Eram apenas 15 minutinhos a pé! O que é que poderia correr mal? E ao menos iria a apanhar ar puro.

Após cinco minutinhos de uma retemperada marcha, na qual o Zé já se estava a mentalizar para as inúmeras tarefas que o aguardavam para aquele dia, um trovão ressoou no horizonte. Antes que o Zé tivesse oportunidade para estugar o passo para evitar apanhar uma chuvada, uma dezena de nuvens mais negras que o futuro do país apareceram no céu, despejando o seu conteúdo na moleirinha do Zé que, em poucos segundos, ficou com água em todos os orifícios, mesmo nos mais recônditos do seu ser.

Após dez minutos a levar com uma verdadeira tempestade tropical no lombo, o Zé avistou, finalmente, a fachada do edifício da sua empresa. Deu uma última corrida e sentiu o chão fugir-lhe dos pés. Foi um tralho monumental, daqueles que merecem uma ovação de pé. Havia Zé para um lado, pasta para o outro. Sapatos no meio de uma frondosa poça de água. Gravata cheia de lama. O Zé cada vez mais tinha vontade de ser ele a fazer greve. Mas sabia que se o fizesse, ainda poderia perder o seu amado emprego. E depois não conseguiria pagar a prestação do seu T1, em Ranholas.

Com esforço, levantou-se, endireitou-se e arrastou-se até ao soleiro da porta da sua empresa. Ao chegar ao interior, tinha duas lagrimas nos olhos: uma de alívio, por finalmente ter chegado ao seu destino; outra de dor, por finalmente ter chegado ao seu destino. Ao passar pela garagem da empresa, Zé viu o rabo anafado do seu patrão sair do interior de um potente carrão topo de gama – que tinhas sido gentilmente ofertado pela sua zelosa entidade patronal – dando-lhe os bons dias mais simpáticos que o seu estado de espírito possibilitou, recebendo como resposta as calorosas palavras:

– Estás atrasado, Zé! Estes minutos vão ser retirados do seu ordenado.

E o Zé foi trabalhar.