Dragon Ball

Dragon Ball

Dezembro 26, 2018 0 Por Francisco Ramalheira
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Antes de começar vou levantar-me e fazer uma vénia. Afinal de contas, vou tocar em material sagrado (mais concretamente nas bolas do dragão). Se houve série que marcou os anos 90, essa série foi Dragon Ball.

Se Dragon Ball fosse uma religião eu assumir-me-ia imediatamente como um dragonballista.

Dragon Ball – Abertura

Dragon Ball é um manga criado pelo lendário Akira Toriyama, vendo os seus capítulos saírem semanalmente na Weekly Shōnen Jump, entre 1984 e 1995. A série teve tanto sucesso que, rapidamente, Toriyama tinha na caixa do correio uma proposta da Toei Animation a propor a criação de uma série de anime. E foi com os “desenhos animados” que Dragon Ball obteve o seu passaporte e viajou para fora do Japão, transformando-se “apenas” na serie de animação mais famosa de todos os tempos, criando-se à sua volta uma aura de excitação como nunca tinha antes sido vista, pondo os adolescentes mais excitados com “bonecada” do que com o sexo oposto.

Aqui no burgo a situação não foi diferente, com a febre Dragon Ball a atingir em cheio os portugueses. Dragon Ball foi mesmo a primeira animação que teve sucesso a romper com os portões das faixas etárias, sendo seguido religiosamente por pessoas de todas as idades.

DBZ – Abertura


A revolução escolar

Na minha escola – como em tantas outras – a hora em que a SIC transmitia o episódio era um momento sagrado e o Buereré era o templo onde era exibido o novo episódio da nossa religião.

A escola parava.

Alunos, contínuos e até professores sentavam-se na zona onde estava alocada uma televisão mais minúscula que o cérebro de um concorrente de reality show. Quando a música da abertura começa a tocar, os gritos e a algazarra que reinavam sempre naquela sala cessava de imediato. Dragon Ball tinha o condão de pôr dezenas de crianças irrequietas a fazer de estátua durante 20 minutos ininterruptos.

A serie tinha tudo: muita e boa ação, personagens carismáticos e uma história que nos fazia ficar agarrados e a esperar sempre ansiosamente pelo próximo episódio, tendo ainda tempo para promover aqueles valores lamechas como a amizade, entreajuda, a importância de nos esforçarmos para atingirmos os nossos objetivos e essas coisas todas bonitas. Até tinha momentos de levar a lagrimita ao canto do olho! Aliás uma das minhas máximas de vida é que se não te comoveste quando o Coraçãozinho de Satã (que na série original se chama Piccolo, soberba tradução!) sacrifica a sua vida para salvar a de Son Gohan, o filho do seu inimigo então é porque tens um calhau putrefacto e fedorento no lugar do coração.

DB GT – Abertura

O merchandising Dragon Ball

E se Dragon Ball foi bom, a sequela – Dragon Ball Z – foi um estrondo, apresentando alguns dos mais importantes vilões de sempre e aumentando exponencialmente a febre que já existia. Como em qualquer febre digna desse nome, o merchandising Dragon Ball estava por todo o lado: cromos, tazos, videojogos, roupa, posters, cuecas (sim, eu tive umas, eram branquinhas, mesmo à macho, e tinham o Trunks)… A lista é interminável.

E eu, como qualquer fã digno desse nome, queria tudo.

T-U-D-O.

O meu cartucho do jogo para a Mega Drive tem tantas horas em cima que nem sei como é que o plástico não derreteu. Mais que isso, só as horas que passei no recreio da escola a replicar com os meus amigos os episódios do Dragon Ball. Uma vez gritei tanto a transformar-me em super guerreiro que até acho que tive uma baixa de tensão. E quando um amigo batia ficticiamente a bota, tínhamos de juntar as também fictícias sete bolas de cristal e invocamos o dragão sagrado, papel que era desempenhado na perfeição pela Dona Generosa, a nossa contínua favorita. Até lhe pedíamos para fazer a voz do dragão. E ela fazia (mal, mas pronto. Era o que havia).

A dobragem tuga

Mas há um aspeto que torna a nossa versão da série em algo verdadeiramente único e que não há em mais nenhum país: a dobragem. Uns adoram, os mais puristas dirão que muitos das vozes são excessivamente galhofeiras e não representam a verdadeira natureza da personagem. Os puristas que vão apanhar rabanetes. E sim, eu sou nerd o suficiente para também ter visto a série em japonês e adorei mas… a versão tuga é a versão tuga. Há que ter orgulho no que é nosso!

Pérolas da dobragem portuguesa

A nossa versão espelha aquilo que de melhor há em Portugal: criatividade. A tal forma de fazer muito com poucos meios. Ao contrário da grande maioria dos outros países, aqui na terra dos pobres o orçamento para dobrar a série era muito pequanichinho, o que levava a que apenas houvesse, literalmente, meia dúzia de atores para dobrar a voz de dezenas e dezenas de personagens. Por isso, foi necessário a cada ator arranjar uma variedade quase infinita de vozes, resultando assim a que vários personagens – inclusive alguns que deveriam ser imponentes mauzões – tivessem uma voz em que parecia que lhes tinha sido enfiada uma flauta pelo traseiro acima. Portugal pode orgulhar-se de ter o Freezer mais rabicho de todos.



Mas como se as vozes cómicas já não fossem motivos suficientes, os atores resolveram ainda abrilhantar ainda mais a tarde da pequenada introduzindo toques de comédia em tudo quanto era sítio. Como em tudo o que é do domínio da comicidade, houve algumas coisas bastante disparatadas e outras que foram de tal forma hilariantes que ainda hoje me rio quando penso nelas. Digam o que disseram, a dobragem nacional de Dragon Ball é única, icónica e nunca mais se vai fazer nada tão louco, demente e genial.

Mais de vinte anos depois do final do Dragon Ball Z, foi anunciado Dragon Ball Super,a verdadeira sequela de Z, tendo a intervenção do criador Akira Toriyama! Mal podia conter a minha excitação. Acho que até soltei umas pinguinhas nas cuecas, quando soube que Son Goku iria ter novas aventuras. Mas sabem aquele flagelo em que as sequelas que surgem muitos anos depois ficam a anos-luz do produto original? Pois.

Aquela malta que já viu quinhentos mil animes gosta de dizer que Dragon Ball “não é assim tão bom” e que “há outras séries muito melhores, mais completas e não sei mais o quê”. É capaz. Mas para mim (e é essa a opinião que me interessa), não há nenhuma que tenha ficado cá dentro como o Dragon Ball. Logo é a melhor.

“Não percam o próximo episódio, porque nós, também não!”

Ouvir para bombar à grande o efeito nostálgico