O natal

O natal

Dezembro 25, 2018 0 Por Francisco Ramalheira
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Texto sobre o natal no dia 25 de dezembro? É indubitável que este blogue prima pela originalidade!

O natal é uma época mágica de amor, paz e harmonia, no qual a família se junta toda numa comunhão enternecedora que nos traz quentinho ao coração para o resto do ano. O Natal é aquela época do ano em que é suposto nos lembrarmos mais uns dos outros e estarmos mais despertos para os que menos afortunados e para os problemas sociais que assolam a nossa sociedade, por vezes tão injusta e egoísta.

O natal é, no fundo, a época do ano em que nos lembramos que devemos ser boas pessoas. Se fossemos assim o ano todo se calhar as coisas andavam melhor. Proponho que esta quadra deixe de ser celebrada apenas uma vez por ano e passe a ser uma vez por mês desde que (esta parte é fulcral) o “All I want for Christmas is You” da xôra dona Mariah Carrey se cinja apenas a dezembro. Ouvir essa música em loop o ano todo despertaria, certamente, o assassino em série que está adormecido dentro de qualquer um.

O mais importante do natal

Quando somos crianças, por muito que a nossa família – zelosa por nos dar uma educação altruísta e humana – nos enfiasse pela goela abaixo que o mais importante nesta quadra festiva é aquela coisa do amor, amizade e essas lamechices tão importantes, a verdade é que, para um petiz, o Natal invariavelmente tem uma magia muito especial devido a um conceito muito específico: prendas.

Esta é a época em que tínhamos permissão para pedir aquele Lego mais caro ou um par de jogos para a nossa consola porque a nossa família, dificilmente, não cederia aos nossos caprichos, contrastando assim com o resto do ano, onde arrancar um brinquedo aos nossos progenitores era, muito vezes, um projeto sensível e de múltiplas etapas e que, tantas vezes, não era bafejado pelo sucesso. No natal sabíamos que iriamos ter a sorte que não tínhamos ao longo do resto do ano. E, no final de novembro, já estávamos ansiosos pela noite do dia 24, na qual iríamos abrir os tão preciosos artefactos que iriam polvilhar de diversão dezenas de horas da nossa vida.

Esta insana febre consumista que nos invadia nas semanas anterior ao grande dia era imensamente exponenciado devido a uma coisa muito simples: anúncios de televisão. Durante a infância fomos de tal maneira bombardeados com os mais diversos anúncios publicitários que, quase vinte anos depois, ainda sou mais do que capaz de recitar de cor anúncios de jogos, Legos, Playmobiles (é assim que se diz o plural?) e até bonecas.

Muitas e prazerosas eram as horas passadas a folhear os catálogos de natal da Toys R Us, a contemplar as maravilhas que sabíamos que não podíamos ter. Naquela altura, para um miúdo com menos de dez anos contemplar um catálogo de natal da Toys R Us e saber que só podíamos escolher uma ou duas prendas, era exatamente igual a mostrarem uma vintena de modelos suecas de sorriso bonito e busto volumoso a um imberbe jovem adulto e dizerem-lhe “escolhe só uma”.

Há poucas decisões na vida tão complicadas quanto esta.

O lado negro do Natal

Mas como não há bela sem senão, no natal não havia só alegria, festas e coisas maravilhosas. Era também a época em que decorria um dos meus maiores pesadelos infantis: a festa de natal da escola.

Para um puto tímido, a perspetiva de subir a um palco e estar diante de dezenas de adultos munidos de uma câmara fotográfica é uma experiência aterradora. Juntem-lhe músicas de natal, roupa pirosa e que pica nos locais mais recônditos e o facto de eu, irremediavelmente, ir todos os anos parar ao coro de natal e que, por ser, irremediavelmente, dos mais baixos da turma, tinha sempre de ir para a primeira fila do dito coro, aquela que era mais facilmente escrutinada pelo olhar atento de todos os adultos.

O meu natal predileto foi quando estive demasiado doente para ir cantar para a festa da escola. Custou-me horrores não poder desafinar o “A todos um bom natal” em frente de toda a comunidade escolar.

Outra coisa abominável e que faz questão de me assombrar a mente todos os anos nesta quadra festiva é, obviamente, o bolo-rei.

Aproveito para colocar uma questão a este vasto auditório: há alguém que, verdadeiramente, goste de bolo-rei? Há algum badocha desse lado que quando começa a salivar pela quantidade industrial de comida que vai enfardar no natal pensa logo no bolo-rei?

Não sei quem foi o iluminado que achou boa ideia misturar frutas cristalizadas no meio de um bolo, mas esse individuo era merecedor de um bilhete só de ida para Guantánamo. Pior que isso, só mesmo o triste que achou que era uma estupenda ideia colocar um bocado de ferro (vulgo brinquedo), passível de nos lixar a dentição, no meio da massa do bolo. E este calhau de ferro era colocado no meio do bolo sem qualquer tipo de proteção! Dando assim um gostinho a ferro a esta insipida doçaria que nos faz dar graças a uma qualquer entidade divina pela existência da ASAE.

E, convenhamos, há poucos jogos mais engraçados do que trincar uma fatia de bolo e deixarmos lá um incisivo. Pior que isso, só mesmo partir um dente e engolir uma fruta cristalizada ao mesmo tempo.

Como nota final,

devo dizer que envelhecer é uma gaita e que, há poucas coisas na vida que são melhores em adulto do que em criança. Mas, numa perspetiva isenta de materialismo, o natal é uma delas. A transição para a adolescência dá-se quando passamos a receber mais roupa do que brinquedos, enquanto que a transição para a idade adulta se dá quando deixamos, verdadeiramente, de nos preocuparmos com o que vamos receber, passando a nossa preocupação a ser qual a melhor prenda para darmos aos nossos entes queridos. E aos menos queridos também.

E agora sim, que já não somos uns putos gananciosos e sedentos de mais um brinquedo valorizamos a quadra por ser mais uma oportunidade para estarmos juntos com a família. Eu, para além de todas estas coisas bonitas, a sapiência da idade adulta mostrou-me que o natal é muito mais do que prendas: é também a ceia da consoada, na qual posso enfardar em quantidades industriais os mais variados víveres, ficando com o estômago atafulhado em comida até à passagem de ano.

Feliz Natal a todos!