O Zé vai apanhar trânsito

O Zé vai apanhar trânsito

Dezembro 21, 2018 0 Por Francisco Ramalheira
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Uma súbita vontade de entregar a alma ao Criador nasceu subitamente dentro do Zé.

E o caso não era para menos. Mal entrou na autoestrada – rotina quotidiana que lhe tira saúde e anos de vida – para se deslocar para o seu local de trabalho, o Zé percebeu imediatamente que os anos seguintes seriam passados no interior do seu velho veículo, fiel companheiro de tantas horas de transito. No horizonte espraiava-se uma enorme bicha com quilómetros de comprimento. Para onde quer que olhasse, o Zé só via a bicha. (Nota de autor: neste contexto, entende-se a bicha como uma fila de inúmeros veículos motorizados).

Mas estamos em agosto!, espantava-se o Zé, Era suposto não haver tanto trânsito em agosto! Há muito palhaço que está de férias e as crianças não tem escola. Que raio se passa aqui? E logo hoje que tinha uma reunião tão importante…, pensou enquanto se arrependia amargamente por não ter feito xixi em casa.

Enquanto tentava perceber onde é que principiava a bicha, uma argola de suor começou a formar-se na linda camisa azul do Zé, parecendo que tinha ao peito um enorme babete de suor. Enquanto fazia malabarismos para tirar o blazer e afrouxar o nó da gravata, o Zé amaldiçoou o ar condicionado do seu calhambeque, que já estava avariado há semanas e cuja reparação ele tinha vindo a adiar sistematicamente.

Tentando distrair-se da bicha que o apoquentava e da vontade de urinar que o consumia, o Zé aumentou o volume do rádio, no qual ouviu, com assombro, que havia muito transito na zona onde ele se encontrava.

Aaaaah, não me digam…, suspirou.

Enquanto se distraia a ouvir rádio, o Zé chegou, muito lentamente, até ao local onde ganhava mais cabelos brancos em dias de trânsito: a impiedosa intersecção na qual metade dos condutores tinha de passar para chegar ao outro lado da cidade.

Ao contrário da grande maioria dos seus colegas de bicha, o Zé era um condutor consciencioso (ou “tótó”, no linguajar dos grunhos do asfalto) pelo que, mal pode, meteu o pisca para a direita, sinalizando assim a sua manobra (há muito animal encartado que não faz ideia para que serve o pisca, pelo que achei de bom tom fazer aqui um bocadinho de serviço público).

Quando teve oportunidade, o Zé virou para a nova faixa de rodagem, apreciando depois o chicoespertismo do portuga, que apreciava a emoção de galgar metros na faixa errada, pondo depois, inocentemente, o pisca à última da hora, ficando assim à mercê da bondade de um dos totós que viraram para esta nova faixa na hora certa (ficando mais tempo na bicha por causa disso).

Até aqui, tudo mais ou menos bem.

O problema é que, até que um desses totós ceda passagem ao chico-esperto, este entope outra faixa de rodagem, criando atrás de si uma nova bicha de carros que apenas querem seguir em frente e não podem, pois, o senhor doutor chico-esperto achou que era bom demais para esperar na bicha, como os demais comuns mortais.

Este egoísmo é ampliado vezes mil em dias que o transito está caótico. Como era o caso daquele dia.

Enquanto fazia um esforço sobre-humano para não se enervar e para não derramar umas gotinhas de urina nas suas velhas e gastas cuecas, o Zé ouve o telemóvel tocar.

Era o seu patrão! O Zé rejubilou de alegria.

Naquela fração de segundo que demorou a pegar no aparelho, um dos chico-espertos acima mencionados meteu-se no exíguo espaço entre o calhambeque do Zé e o BMW da frente. Não havia um átomo livre e o carro do chico-esperto e o carro do Zé. Praguejando entredentes, o Zé atendeu a chamada:

– Estou sim, doutor Salvador. Faça favor de dizer.

– Onde andas?

– Doutor, mandei-lhe uma sms e um email com todos os documentos da reunião. Estou preso no transito.

– Eu vi. Mas preciso de ti na reunião.

– Peço desculpa pelo atraso, doutor. Mas está tudo parado e é impossível passar por cima dos restantes carros.

-É que eu me atrasei. Só acordei agora. Ligue para os senhores com quem tínhamos a reunião e diga que se atrasou, pff. Não desligue a chamada enquanto não fizer a remarcação da reunião.

– Certamente, doutor.

– E para a próxima, veja lá se não se atrasa.

Terminada a enternecedora chamada, o Zé não sabia o que lhe estava a custar mais: não mandar o chefe para um sítio muito feio e com a terminologia “alho” ou aguentar o xixi que o apoquentava há tantos e tão dolorosos minutos.

Encolheu os ombros e cumpriu escrupulosamente com o que lhe tinha sido pedido. Terminada nova chamada, o Zé chegou ao local onde percebeu, incrédulo, qual era a causa para ter passado as últimas duas horas e meia no para/arranca, stressado para chegar ao trabalho e com muita vontade de fazer xixi: parece que os seus acéfalos compatriotas eram grandes apreciadores de testemunharem a desgraça alheia, tendo um estranho fetiche em ver chapa amolgada. 

Pois é, parece que a razão de todo aquele amontoar insano de veículos se devia, apenas, ao facto de o nobre povo lusitano ser grande apreciador da arte de contemplar um sinistro automóvel, pelo que se iam amontoando aos magotes para melhor poderem ver os danos nas viaturas e melhor poderem ouvir os impropérios que os condutores sinistrados verbalizam bem alto. Com aqueles coletes amarelos florescentes pareciam dois poupas enraivecidos.

É que nem sequer tinha sido um acidente grande, com malta a ficar estropiada ou carros em chamas. Apenas havia chapa amolgada.

Aaaaaaaah que orgulho em ser português!

O Zé acabou por soltar uma pinguinha de frustração.