O Zé vai aos saldos da Black Friday

O Zé vai aos saldos da Black Friday

Dezembro 17, 2018 0 Por Francisco Ramalheira
Partilhai e espalhai a mensagem gambuziana

Olhando-se ao espelho, o Zé desenhava na cara as pinturas tribais de guerra que aquele momento requeria. Naquela noite iria partir. E não sabia se voltava a casa. Ou como voltava. Mas voltaria, certamente, um Zé diferente.

Aquela noite era a primeira da Black Friday e o Zé e sua digníssima esposa desejavam ardentemente adquirir produtos à bruta. A grande maioria, são produtos aos quais nunca vão dar uso e que não tem qualquer necessidade de possuir. São produtos para os quais, em situações normais, nunca olhariam duas veze na prateleira de uma loja. Mas naquela noite estaria tudo em promoção.

TUDO!

A febre capitalista invadiu o corpo gelatinoso do Zé e ele mal conseguia conter a excitação por saber que, muito em breve, estaria numa grande superfície comercial, apinhada de gente, ouvindo em loop músicas de natal enquanto um senhor anafado e peludo roçava nele o roliço traseiro para poder chegar a uma prateleira mais recôndita.

E a tão aguardada hora chegou finalmente. A noite mágica do Zé teve inicio no parque de estacionamento, esse local mítico e de lendas, onde a magia tantas vezes acontece. Há poucos locais mais prazerosos para se passar uma noite de sexta-feira do que um bonito parque de estacionamento com forte odor a gasolina e repleto de grossos pilares. O Zé perdeu o pouco de juventude que lhe restava só para encontrar lugar para estacionar. Foi quase uma hora a esvaziar o deposito de gasolina pelas frias lajes do estacionamento à procura do cálice sagrado que é um lugar livre para inserir a sua viatura. Até que, iluminado por uma luz divina, o tão desejado local apareceu. O Zé pôs o pisca, preparou-se para fazer a manobra e… um borrego qualquer sem respeito pelas regras elementares da boa educação e do civismo no ramo do parqueamento surgiu de repente, ultrapassou o calhambeque do Zé e estacionou no lugar, saindo do carro como se não tivesse feito nada de mal, exibindo o semblante mais angelical deste mundo.

O Zé mostrou-lhe o dedo do meio, enquanto gritava que o que aquela besta merecia era que um cidadão de etnia africana, com mais de dois metros, praticasse o ato violento do amor com o seu traseiro.

A demanda por novo lugar de estacionamento recomeçou. Felizmente, os Deuses da Black Friday sorriram ao Zé e, pouco tempo depois um smart abandonou o seu local. Era ali. Era ali que o Zé iria ser feliz!

– Zé… olha que o carro não cabe ali – referiu, sabiamente, a sua esposa.

Para muito macho, a sua masculinidade e virilidade é medida pela sua capacidade de estacionar em espaços exíguos. O Zé é um destes espécimes. Por isso, como qualquer macho acéfalo digno desse nome, não tomou o conselho da mulher como uma advertência. Para ele, as palavras da Maria, a sua esposa, foram um desafio. Um desafio que a sua excecional habilidade de estacionamento iria conseguir superar!

Não conseguiu. O Zé suava em bica, enquanto o melódico som da chapa do carro a raspar nos lúgubres pilares de pedra que ladeavam o lugar. Cada manobra que fazia, o carro raspava. E a poça de suor nos sovacos do Zé crescia. Se virava o volante para a direita, o carro raspava no pilar. Se virava o volante para a direita, o carro raspava no pilar. Se avançava, o carro raspava no pilar. Em cada movimento que fazia, o carro raspava no pilar. Com muita dificuldade, a cada vez mais amolgada viatura lá entrou para o interior do exíguo espaço. O Zé suspirou de alegria. Até que a voz serena de Maria o alertou para nova calamidade:

– Olha lá, e como é que saímos daqui? Não há espaço para abrir a porta.

Olhando de soslaio para o exterior, o Zé rapidamente conclui que a sua amada esposa tem toda a razão. A única forma de abrir a porta é amolgando a porta do carro do lado. O Zé suspirou fundo e lembrou-se dos preços baixos que iria encontrar e em todo o dinheiro que iria poupar. E teve uma ideia brilhante.

– Querida…

– Sim?

– Vamos ter de sair pelo tejadilho.

Ela riu-se. Parou quando percebeu que o marido estava a falar a sério.

– Mas tu achas que essa pança cabe naquele buraquinho?

O Zé esteve quase quase a devolver a provocação. Seria uma resposta bem javardolas. Mas como não lhe apetecia dormir no sofá reprimiu a resposta, limitando-se a encolher os ombros e a abrir o tejadilho.

Uma vez mais, a sua sábia esposa tinha razão e o Zé teve mais dificuldades em trepar pelo tejadilho acima do que a encontrar lugar para estacionar o carro. O esforço foi de tal forma intenso que o esfíncter do Zé se queixou ruidosamente, expelindo um simpático flato, que foi de tal forma violento que despenteou a sua amada esposa.

Foi um Zé derrotado e certo de que, naquela noite, seria o sofá a acolhê-lo que saiu, finalmente, da viatura enclausurada. À sua frente, estugando o passo, ia Maria, a sua amada esposa, mantendo uma distância de segurança para o seu marido, como forma de demonstrar que ainda estava chateada com o episodio “Flato na face”, ocorrido momentos antes.

Mal entrou no centro comercial, o Zé reparou logo que seria muito complicado respirar ali dentro, pois a densidade populacional era de tal forma elevada que as moléculas de oxigénio rapidamente se tornariam num bem escasso. Ainda a arfar devido ao esforço físico que empreendeu para sair do carro, uma nova prova desportiva atravessou-se no caminho do Zé, nomeadamente o atletismo e a corrida de barreiras. Mal entrou no shopping o radar de saldos disparou na cabeça da Maria, que saiu quase em sprint na direção de uma das suas lojas prediletas. Zé não podia deixar de invejar a condição física da esposa, assim como a sua eximia capacidade de contornar os inúmeros obstáculos – leia-se pessoas – que lhe apareciam à frente.

O Zé não tinha esta destreza. Que o diga a pobre menina de seis anos que levou com a sua pança em cheio no olho.

A isto eu chamo uma sexta bem passada

Ao entrar na loja, o Zé nem queria acreditar no cenário apocalíptico que ali se desenrolava. Desde senhoras a puxarem o cabelo umas das outras, na ânsia de chegarem primeiro à tão cobiçada cueca de renda, até duas cidadãs seniores que se degladiavam no soalho da loja por uma camisola de malha incrivelmente pirosa. Com as reviravoltas, a saia de uma das simpáticas decanas subiu demasiado, dando a todos os presentes a oportunidade de contemplar um cenário paisagístico que os pôs a todos a pensar no sentido da vida. O Zé teve de conter a vontade de vazar as vistas.

De repente, o Zé vê a sua esposa correr desvairada na sua direção, entregando-lhe um saco repleto dos mais variados tipos de artigos. Maria deu-lhe um suculento beijo na bochecha e sibilou, dengosamente:

– Estes artigos são os últimos da promoção. Corre para a caixa e paga-os depressa! Não olhes para trás. Corre como o vento, meu amor.

Consciente da importância da missão que lhe fora confiada, o Zé correu o mais depressa que as suas pernas lhe permitiram, olhando apenas de soslaio para a esposa, que lhe acenava com o semblante de quem se preparava para partir para a guerra e não sabia se voltaria a ver a luz do dia.

Quando o Zé já via luz ao fundo do túnel (que é como quem diz, o local de pagamento) foi barrado por um trio de adolescentes, cujo olhar guloso estava direcionado para a zona do baixo ventre do Zé, mais concretamente para o pesado saco que ele transportava com as duas mãos.

– O que é que levas aí, sócio? – Questionou, educadamente, a moça mais corpulenta do trio, sendo de tal forma encorpada que parecia que tinha vindo de uma ganadaria premiada, em vez de uma escola secundária.

– São apenas roupas, minhas meninas – respondeu o velho Zé, nervoso.

– Priscila, esta não era a saia que tu querias? – questionou a mais baixa das adolescentes, sem nunca tirar as manápulas do telemóvel e sem olhar para outro sítio que não o visor.

– Era. E esta é a última – confirmou a Priscila, uma jovem encantadora supimpamente vestida como uma dondoca, mas que possuía um timbre na voz que gelou a espinha do Zé.

– Mas esta saia é da senhora, minha esposa, senão teria todo o gosto em lha conceder…

– Orienta aí uma saia, socio – solicitou, educadamente, a matulona.

Agarrando-se instintivamente ao saco da roupa da mulher, o Zé sabia que era uma questão de segundos até ser atacado pelas três adolescentes sedentas de roupas em saldos. Invadido por uma força interior que nem sabia possuir, o Zé correu como nunca tinha corrido na vida, contornando epicamente a matulona e dando um vigoroso encontrão à adolescente tia e à adolescente que tinha como gémea siamesa um telemóvel, embrenhando-se rapidamente no seio de uma multidão que lutava para despir os manequins da loja, para levar os resquícios das peças em promoção.

Foi com incontável regozijo que o Zé chegou à caixa para pagar. Foi com incontido horror que constatou que a bicha já tinha vários quilómetros de comprimento – era uma grande bicha. Na bicha, o Zé encontrou rapidamente uma manada de machos, de semblante igualmente entediado, que também carregavam os sacos de compras das respetivas amadas. Rapidamente travou amizade com estes companheiros de armas, pois é sabido que é nos momentos de grandes dificuldades que se estreitam laços de camaradagem. Naquela bicha, Zé fez amigos para a vida. Todos, sem exceção, invejavam os machos solteiros que, em vez de estarem numa bicha gigantesca de uma loja de roupa, estavam numa bicha gigantesca de uma loja de produtos eletrónicos.

Quando, depois de três horas de bicha, chegou finalmente a vez do Zé pagar, retirou a carteira do bolso de trás apercebendo-se que, a mesma já lá não se encontrava. Revirou todas as algibeiras, mesmo as mais recônditas do seu ser. A carteira tinha-se volatizado! A sua esposa, que, entretanto, já tinha chegado com mais sacos repletos de iguarias, bufava de impaciência.

– Só tu para perderes a carteira num momento tão importante quanto este!

– E a tua onde está?

– Deixei-a no carro…

Adivinhem quem a foi buscar?

O Zé.

Um bocadinho da humanidade falece em cada Black Friday

Correu o mais depressa que conseguiu até ao carro, trepou o tejadilho, entrou por ele adentro, pegou na carteira, voltou a trepar pelo tejadilho e correu de novo até à loja. Quando lá chegou, encontrou a esposa a choramingar num canto. Parece que três adolescentes lhe tinham levado os sacos.

Imbuído de um ataque de fúria feroz que lhe invadiu as entranhas, o Zé solta um urro de guerra – assustando, no processo, diversos transeuntes – pega no batom da sua Maria e pinta traços tribais nas bochechas. O Zé tinha acabado de entrar em guerra.

Despedindo-se masculamente da sua amada, dando-lhe um repenicado beijo na testa, o Zé partiu. Perscrutando avidamente o campo de batalha, o nosso amigo conseguiu encontrar as suas três nemesis: o trio de infames adolescentes que roubaram os sacalhões de compras de sua esposa.

O Zé sabia que para os recuperar teria de ser astuto, audaz e muito corajoso. Não sairia vivo daquela épica contenda sem um plano adequado e pensado ao milímetro. Não podia falhar.

Sentindo as costas empapadas em suor e as pernas a tremerem que nem varas verdes, o Zé chegou à beira das infames adolescentes, proferindo as imortais palavras:

– Ó meu Deus! Estão ali fatos de banho chiquérrimos com 80% de desconto!

Instintivamente, o trio olhou para a direção que o indicador do Zé apontava. Aproveitando aquele microssegundo de distração, o nosso herói pegou nos sacos, arrancou-os à bruta das mãos das suas mais recentes donas e correu como se a sua vida dependesse disso, voltando para a bicha, camuflando-se no meio da multidão, orando para que as suas valorosas oponentes não o encontrassem mais.

Três horas depois, o Zé estava de volta à sua viatura, pronto para regressar ao seu doce lar, para retemperar forças de tão cansativa jornada. Nas mãos trazia o produto do seu triunfo: os sacalhões de compras da esposa, que caminha alegremente e orgulhosamente ao lado do seu corajoso marido.

Novo esforço sobre-humano para trepar até ao tejadilho do carro para enfiar a montanha de sacos pelo exíguo buraco, e para depois se enfiar a ele e à distinta esposa pelo mesmo exíguo buraco. Ainda com a fronte empapada em suor, o Zé colocou a chave na ignição, rodou-a e ouviu o suave ronronar do seu velho bólide. Meteu a marcha-atrás e pôs o pé no acelerador. O carro fazia barulho, mas mal se mexia. O Zé até teve saudades de ouvir o raspar da chapa nos pilares de pedra.

Foi então que pôs a cabeçorra de fora da janela. Tinha os quatro pneus furados. Ao fundo, as três adolescentes acenavam vigorosamente, com um sorrido pérfido nos lábios.

– Ao menos poupamos imenso dinheiro nestas compras! – dizia Maria, entusiasmada, enquanto pegava numa das blusas que tinha adquirido. Ao pegar em tão valioso item, constata, com horror, que a etiqueta da promoção lhe cai no regaço, demonstrando assim uma velha e empoeirada etiqueta que indicava que, o preço que pagou com o referido “desconto” era exatamente o valor da blusa antes da Black Friday.

Parece que os simpáticos senhores da loja aumentaram o preço na véspera, voltando a descê-lo para o preço original no dia seguinte, anunciado como aquele onde proliferariam tantos e tão bons descontos.

Que atenciosos.