O Zé vai às finanças

O Zé vai às finanças

Dezembro 13, 2018 0 Por Francisco Ramalheira
Partilhai e espalhai a mensagem gambuziana

Depois de um longo e extenuante dia de trabalho, o Zé chegou finalmente à sua humilde habitação. Entrou no prédio e as suas narinas foram automaticamente violadas por um intenso odor que misturava animal molhado, naftalina e aftershave barato.

O senhor Anastácio levou o seu Lulu à rua há pouco tempo, concluiu.

Como era costume, antes de subir as escadas, Zé dirigiu-se ao correio, acocorou-se a abriu a enferrujada portinhola. Do interior, retirou um sobrescrito empoeirado cujo conteúdo continha uma passagem para um dia repleto de aventuras e diversão: o remetente era a Autoridade Tributária e Aduaneira.

Abrindo sofregamente o envelope, o Zé rapidamente descobriu a razão para ter sido contemplado com a missiva de tão distinta entidade: as letras vermelhas a dizer “pagamento” não deixavam margem para dúvidas. Como grande temente que era dessa imponente entidade de cariz quase metafisico a que chamamos de “Estado Português”, no dia seguinte o Zé estava à porta das Finanças, pronto para regularizar a sua situação fiscal.

Embora tenha chegado antes da hora de abertura, a fila à porta de tão nobre e amada instituição já dobrava a esquina. A grande maioria dos elementos que compunham a frondosa bicha eram senhoras de idade, claramente reformadas, sendo que, muitas delas, muito provavelmente, nem teriam qualquer tipo de assunto para tratar nas Finanças, mas deslocam-se à mesma a este simpático local em busca de calor humano e de trocar muitos dedos de conversa com os funcionários públicos e com as restantes idosas. Não há nada mais revigorante para um idoso reformado do que acordar cedo para estar numa fila para ser dos primeiros a entrar em determinado local, consternando a vida dos pobres coitados que ainda não se reformaram – e que, provavelmente, apenas o poderão fazer lá para os 150 anos – e que apenas se querem despachar para poderem chegar o menos tarde possível ao seu trabalho.

À frente do Zé estava uma senhora muito encarquilhada a dizer à sua companheira da frente que tinha 70 anos e já se tinha reformado há 20. O Zé soltou uma lágrima ao constatar que a senhora se tinha reformado com a idade que ele tinha agora. O Zé teve de reprimir uma gigantesca vontade em dar um pontapé na bengala da velha, mas lembrou-se do respeito que todos os anciões nos merecem e tentou pensar em coisas boas.

Quando finalmente as portas das Finanças abriram, Zé dirigiu-se velozmente para o guichet para tirar a sua senha, retirando uma referente à área que se intitulava como “Pagamentos”. Tendo em conta que iria fazer um pagamento, pareceu-lhe a opção mais logica.

Foi de senha em punho que o Zé se dirigiu à simpática salinha adjacente à máquina das senhas, constatando, com horror, que a mesma se encontrava apinhada de simpáticas anciãs. Mas rapidamente o Zé arranjou motivos para se animar quando reparou no número que constava no papelinho que indicava quando seria a sua vez. No mostrador eletrónico indicava o número 4, Zé tinha o 9. Ainda bem que vim mais cedo, pensou. Está quase!

Não estava.

É verdade que entre a senha 4 e a senha 9 distam apenas cinco raquíticos algarismos, mas se as detentoras desses malfadados números forem senhoras de idade, ávidas por relatarem sob a forma de monólogo todos os detalhes da sua vida, da vida dos seus parentes e as últimas cusquisses da vizinhança ao pobre coitado que a atender, então aí o caso muda de figura…

Para agravar ainda mais a situação, parecia que, naquele dia os funcionários públicos estavam em greve, pelo que o pobre Zé demorou cerca de três horas para ser atendido. Durante esse tempo entreteve-se a pensar na vida, contar as fendas do teto, receber três telefonemas do seu patrão (para perguntar se demorava muito), a ver uma criança a vomitar, enquanto o respetivo progenitor ignorava a façanha do seu rebento e, por fim, um senhor de manga cava e com um peito repleto de frondosa e fofa plumagem insultar tudo e todos, pois parecia que o estavam a querer obrigar a pagar os impostos. Os bandidos.

Foi com indisfarçável comoção que se levantou quando no mostrador eletrónico apareceu o número 9, estugando o passo até ao cubículo respetivo, dentro do qual morava uma senhora com face de batráquio.

– Bom dia! – Saudou ele, com falsa alegria, a senhora de múltiplos queixos e de semblante tremendamente enfadado que tinha diante si.

– Vim proceder a esta pagamento – explicou o Zé, endereçando o envelope na direção da paquidérmica senhora, que o recebeu enquanto grunhia sons inteligíveis.

– Este pagamento não é aqui que se faz – anunciou a distinta colaboradora do serviço de finanças, no tom de voz mais normal e casual deste mundo.

A pele do Zé ganhou uma tonalidade esverdeada e os seus olhos quase que saltaram das órbitas.

– Não é aqui? Como assim? Venho fazer um pagamento e este serviço é para pagamentos! – referiu, algo exaltado, apontando o indicador na secção da senha que indicava “Pagamentos”, para reforçar a sua ideia.

– Exatamente, aqui fazem-se pagamentos, mas não esse tipo de pagamentos. Para esse tipo de pagamentos tem de tirar a senha E – exclamou jovialmente a senhora, como se estivesse a afirmar a coisa mais lógica deste mundo.

– Então mas se é assim, porque é que não tem nenhum letreiro a avisar na zona da maquina das senhas?

– Pois, efetivamente já não é o primeiro a cometer este erro. Aliás já foram muitos mesmo…

– Então porque raio é que não colocam essa informação na maquina das senhas?

– Essa iniciativa já foi pensada e será implementada em data a definir oportunamente. Esperemos em breve ter a aprovação para avançar.

– Precisam de aprovação para porem um papel por cima de uma misera máquina de senhas?! Epá eu faço-vos isso em três minutos!

O Zé forçou-se a acalmar. Sabia que não valia a pena exaltar-se com aquela senhora, pelo que inspirou fundo, resignou-se à sua insignificância e perguntou, a medo:

– Onde me devo dirigir então?

– Tem que tirar nova senha.

– E voltar a esperar na fila, sendo que agora tenho quinhentas mil pessoas à minha frente?

– Tem de ser. O senhor não é mais que os outros.

– Vim para cá antes da hora de abrir para nada então?

A senhora badocha limitou-se a acenar sarcasticamente com a cabeça, dando início a uma atividade de extrema importância laboral como era limar as coisas rosa-choque pontiagudas a que chamava de unhas.

E o Zé voltou para a máquina das senhas. Nunca teve tanto orgulho na sua pátria amada.