O Zé vai mandar um email

O Zé vai mandar um email

Dezembro 12, 2018 0 Por Francisco Ramalheira
Partilhai e espalhai a mensagem gambuziana

Desmotivado. Cansado. Esbaforido. Outra palavra acabada em “ido” (e começada em “fod”).

Era assim que o Zé se sentia.

Nas últimas semanas a sua pessoa tinha servido para executar a maioria das tarefas mais enfadonhas do seu departamento, recaindo sempre nele a escolha do chefe quando o assunto era “tarefa mais chata que fazer acupuntura nos olhos”.

O Zé nem sabia o porquê de estar nesta situação. Seria por não se ter rido alarvemente – tal como fizeram os seus demais colegas – quando o chefe contou uma piadola totalmente desprovida de graça no almoço de natal da empresa? Seria por já não prestar a devida vassalagem com a sofreguidão de outrora? O Zé não sabia.

A única coisa que sabia é que aquela situação não podia continuar. Por isso, e como sabia que um confronto pessoal acabaria por redundar em nada, resolver comover o seu chefe recorrendo ao dom da palavra.

Mal sabia que estava ali a nascer um dos momentos mais épicos daquela empresa. Assim, abriu um novo email e começou a digitar.

Embora totalmente focado na sua tarefa, que cumpriu zelosamente, relendo duas vezes o conteúdo, o Zé não deu pela falta de uma letra, um mísero “d” desapareceu em combate, reestruturando assim toda a mensagem do email. Assim, em vez de um “pedido” ao seu chefe, o Zé fez um “peido”. Dado o primeiro “peido”, o corretor automático encarregou-se dos restantes.

"Assunto do email: Peido especial

Caríssimo Dr. Salvador D’Latorre,

Como certamente saberá, sou uma pessoa emotiva, pelo que sinto necessidade em partilhar consigo o que vai dentro de mim. E aviso-o de antemão que o que tenho dentro de mim vai sair com estrondo. Para mim, um peido tem de ser desta forma. Tem de ser libertador.

Envio-lhe este peido incessante, de forma a o poder sensibilizar para a minha situação. Como certamente se apercebeu, nas últimas semanas não tenho sido feliz. Há algo dentro de mim que quer sair e não consegue. Daí este peido me estar a aliviar tanto. Era algo que estava para partilhar consigo já há muito tempo. Espero que não me leve a mal este email, mas os anos de trabalho em conjunto que já levamos leva-me a que não tenha pudor em formalizar este peido que, acredite, vem cá de dentro.

Não pude deixar de reparar que, nas últimas semanas, tenho sido marginalizado nos projetos do nosso departamento, pelo qual tanto me tenho dedicado nos últimos anos. Este singelo, mas sentido, peido vem com a intenção de alterar esta situação. Quero reafirmar o meu compromisso para com esta casa e para com os seus projetos, pondo-me à sua inteira disposição.

Despeço-me com amizade, na esperança de que este humilde peido tinha sido do seu agrado, colocando-me à disposição para, caso assim o entenda, lho exemplificar pessoalmente. Teria o maior prazer.

Com os melhores cumprimentos,

Zé”

Tal como o Zé desejava, o seu chefe não ficou indiferente a tão bonita missiva. Mal a leu, chamou-o de imediato ao seu gabinete.

Quando o Zé entrou, notou de imediato que o Dr. Salvador tinha os olhos, outrora frios e calculistas, marejados de lágrimas.

Puxa, nunca pensei que o meu email o comovesse desta forma!, pensou, entusiasmado. A sua esperança num amanhã melhor redobrou de intensidade.

Mas as lágrimas não eram de comoção. O Zé rapidamente percebeu isso.

O carrancudo Dr. Salvador D’Latorre já não se ria assim há anos. E o Zé não só voltou a ter o seu lugar nos projetos do departamento, como também ganhou uma bonita alcunha laboral, que o acompanhou até ao final dos seus dias na empresa, quando se reformou, perto de completar 100 anos, a idade mínima da reforma em 2060. O peido fez efeito!