O coito

O coito

Dezembro 9, 2018 0 Por Francisco Ramalheira
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Quando era miúdo adorava o coito.

Agora que já recorri à brejeirice para ter a vossa atenção vou prosseguir: o coito a que me referi na linha acima não é aquele prazeroso momento em que se pratica a nobre arte do amor. Nos tempos de meninice coito não é isso. Nos tempos de meninice coito não é chavascal. Coito era um refúgio, um ponto de abrigo onde sabemos que podemos recorrer nos tempos de maior incerteza e perigo. O coito dava-nos uma incrível sensação de felicidade e bem-estar.

Chega agora o momento de explicar às poucas almas que não sabem – ou não se lembram – o que era o coito. Estão a ver o mítico jogo infantil chamado “Apanhadas”? Aquele em que várias crianças correm desvairadas atrás umas das outras, em que a pobre coitada que está a apanhar corre sofregamente pelo pátio da escola, na ânsia de passar o testemunho a outro pobre coitado? Eu sempre adorei correr, mas para gostar tinha de estar em campo uma bola e duas balizas. Correr só porque sim nunca me agradou por aí além, mas, ainda assim, foram muitos os intervalos em que brinquei feito tanso às apanhadas, com os meus, igualmente tansos, amigos.

Aliás, uma das minhas quedas mais bonitas na primária foi exatamente a jogar este jogo. Estava um dia chuvoso. O negrume das nuvens enegrecia o céu e a prudência aconselhava os mais sensatos a permanecerem no interior do edifício escolar ou a dedicarem-se a atividades recreativas de menor intensidade física, como jogar Game Boy. Mas para mim e para os meus amigos, “prudência” era um conceito alienígena, pelo que nos encontrávamos, parvamente, a correr num piso alcatroado… Foi neste dia que fiz a minha primeira depilação na perna. E a primeira vez nunca se esquece.

Adiante, o coito era aquele lugar mágico e especial onde nos podíamos esconder durante o jogo da apanhada. Se estivesses no coito não podias ser apanhado! Tão simples quanto isto. O coito era o paraíso dos mais anafados, que após meia dúzia de sprints já estavam a suar em bica, com o cabelo cortado à escovinha acapachado à testa e com uma bola de suor a escorrer pelas costas. E depois havia regras míticas como “só pode estar um de cada vez no coito!”.

O que é muito bonito e respeitador.

Mas na minha escola o coito era num local muito peculiar. Ou melhor, não era bem um local. Era uma pessoa. Para estarmos no coito tínhamos de estar a tocar na Dona Generosa, a contínua mais idosa da escola. E também a mais acarinhada pela pequenada. Recordo com saudade aquela vez em que um amigo meu – bastante alto e encorpado para a idade – abalroa a pobre senhora, na ânsia de alcançar mais depressa o oásis prometido, também conhecido como Dona Generosa. O autor do abalroamento é um individuo de raça negra (espero ter sido suficientemente politicamente correto ao abordar este tema), mas eu nunca o vi tão branco como nesse dia. Querer chegar rápido ao coito nunca é boa política.

Anos volvidos, a frase mítica que durante os quatro anos da primária tantas vezes ressoaram nos meus ouvidos “Estou no coito com a Dona Generosa” atingiu, naturalmente, outro tipo de proporções. Proporções daquelas que nos fazem ter vontade de ir ao grego. Enfim, bons tempos em que eramos umas crianças puras e inocentes e não os javardos que sexualizam tudo o que mexe em que, invariavelmente, todo o ser humano portador de um pénis se transforma.

Os meus intervalos agora são passados a bebericar café manhoso de uma maquina igualmente manhosa, enquanto troco dois dedos de conversa com colegas tão ou mais entediados que eu. Bons tempos em que os intervalos eram passados a correr, cair e estar no coito com a Dona Generosa.

E um grande beijinho de agradecimento para o coito predileto da minha turma. Esteja ela onde estiver.