O Zé vai trabalhar

O Zé vai trabalhar

Dezembro 1, 2018 0 Por Francisco Ramalheira
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Estava uma manhã de segunda-feira fria e chuvosa. Depois de uma muito agradável travessia de comboio – na qual teve a oportunidade de se roçar no lombo de meia cidade – o Zé chegou nervoso e apreensivo ao trabalho. Antevia-se um dia comprido, pois iria ter de entregar o relatório final com a síntese das vantagens financeiras que a fusão com a empresa multinacional da China traria à sua entidade patronal.

A entrega de tão precioso documento era de tal forma absolutamente fulcral para a empresa que o chefe do Zé, o exmo. doutor Salvador D’Latorre, lhe pediu (embora a palavra “ordenar” fosse a mais correta) para trabalhar no relatório durante o fim-de-semana, de forma a o poder apresentar ao Conselho de Administração.

Esmagado pela pressão de tamanha responsabilidade – o Zé sabia perfeitamente que caso a apresentação corresse bem, era obra do seu chefe; mas caso corresse mal as culpas recairiam, invariavelmente, na sua pessoa – pelo que o seu fim-de-semana foi um verdadeiro trambolho, repleto de nervosismo, suores frios, noites mal dormidas e uma esposa entediada que o relembrou várias vezes a quantidade de vezes que os maridos das suas queridas amigas as levavam a passear e a viajar.

Mal entrou no edifício da empresa, o Zé dirigiu-me imediatamente ao escritório do Dr. Salvador, para, tal como combinado, lhe entregar o relatório. O doutor não estava.

Que estupidez a minha… o chefe só chega depois das 10 horas, pensou.

Apesar da enorme urgência em apresentar o supracitado relatório, Salvador D’Latorre e a sua imponente barriga de executivo apenas entraram pela porta do seu escritório adentro estava o ponto das horas quase a bater no 12.

Com um salto felino, o Zé correu até ao seu superior hierárquico, endereçando-lhe um envelope castanho e lacrado, no interior do qual estava o resumo das ideias principais do relatório, que estava na pen que também entregava.

O chefe do Zé era um homem austero. O Zé trabalhava ali há mais de vinte anos e quase nunca o tinha visto esboçar um sorriso. Nem um mínimo sinal de empatia e compaixão. E tinha o carisma de um cabide. Apesar desta inépcia para as relações humanas, era dos homens que mais subordinados tinha na empresa. Dando mais uma prova da sua inegável boa educação, tirou o envelope das mãos do Zé, fazendo-lhe sinal com a mão para se afastar e voltar ao trabalho.

Daqui a cinco minutos está a chamar-me com uma dúvida idiota, pensou o Zé, nem se dando ao trabalho de se voltar a sentar na sua desconfortável cadeira.

Mas, desta vez, o Zé errou. Foi chamado passados apenas três singelos minutos:

– Diga, Dr. Salvador.

– O que raio é isto, Zé?

– Como assim, doutor?

– Não vejo neste relatório nada referente às boas praticas ambientais da nossa empresa?

Um enorme ponto de interrogação apareceu no topo da careca do podre Zé.

– M-mas a empresa tem boas práticas ambientais?

– B-bem… Havemos de ter qualquer coisita. Conto com a tua criatividade – respondeu o obeso engravatado, dando umas palmadinhas nas costas do Zé. – Mas antes disso preciso que me faças meia dúzia de gráficos para apresentar na reunião da tarde, sobre a satisfação do cliente.

– Mas fazer esta alteração no relatório não é a prioridade?

– O quê? Claro que não! O senhor administrador afinal já não precisa do relatório para hoje. Basta entregar-mo na próxima segunda-feira.

Zé sentiu o mundo desabar abaixo dos seus pés. A sua vontade era deitar-se em posição fetal, chorar e ouvir um disco da Celine Dion. Vendo o semblante acabrunhado do seu subordinado, o Dr. Salvador demonstrou toda a sua enorme compaixão e inteligência emocional, afirmando, num timbre terno e paternalista:

– O que eu preciso para agora é mesmo estes gráficos satisfação do cliente. Eu agora vou almoçar, que já passa do meio dia, mas quando voltar quero-os em cima da minha secretária, entendido?

O Zé acenou com a cabeça, dominando a vontade lancinante que tinha em cortar ambos os pulsos, enquanto entoava uma oração em memória do fim-de-semana sacrificado sem necessidade.

E lá foi trabalhar.